terça-feira, 6 de junho de 2017

O tempo no processo depressivo

Estamos vivendo em tempos estranhos. Estamos imersos num sistema de aceleração de todas as coisas e processos que nos tem levado a todos a um estado de exaustão que não nos deixa.
Vivemos uma esquizofrenia psíquica porque, além de acelerados e ansiosos, estamos também deprimidos.
E é interessante como essa coisa chamada tempo se processa numa pessoa que está num estado onde a libido (energia de vida) parece abandonar o sujeito à própria sorte.

O descompasso se inicia ao primeiro abrir dos olhos pela manhã. Na verdade, esse já está instalado porque a noite anterior não foi de descanso e o estado ansioso atrapalhou por demais o sono, durante o qual não se teve a experiência da profundidade. O tempo parece um grande navio embora a gente quisesse que ele fosse um jato. E aí o nossa mente e espírito começam a batalha de acelerar o impossível. Pelo menos para quem está de fora.

Levantar da cama para ir ao banheiro já é uma tarefa olímpica. Engraçado que os minutos andam da mesma maneira, mas o corpo, refém da mente rebelde, se agarra nos ponteiros do relógio para atrapalhar o percurso linear das horas.
Aqueles 15 minutos até poder sair do quarto e ir preparar um gole de café na cozinha estão já multiplicados por quatro no corpo, porque foi essa a proporção de energia gasta para fazer essa tarefa.

No caminho para o trabalho, as coisas parecem não fazer muito sentido porque não se consegue compreender como as pessoas estão num estágio de energia vital que o sujeito nem consegue vislumbrar. E assim passa a primeira metade do dia. Quando chega a hora do almoço parece que já se viveu uma vida. O dia continua e assim ele termina.

A dimensão do tempo é algo que muda radicalmente num processo depressivo. Parece que a baixíssima libido transforma o deprimido num ser fora do tempo. Aquém dele. Pois simplesmente tudo parece que leva pelo menos o dobro para se realizar, mesmo que seja um pensamento. Quando se tem que ir do nível da ideia para a esfera da ação, aí a energia gasta parece quadruplicar, e o fim do dia parece o fim de uma guerra.
Um cansaço sem fim de ter que carregar nas costas o peso das horas que correm e se arrastam ao mesmo tempo, onde o que se produziu foi pensamento demais e ação de menos.

É preciso levar em consideração essa diferente dimensão do tempo para uma pessoa deprimida. Não é preguiça. Não é má vontade. É o ser abandonado pela própria energia de viver. É o se trancafiar no eu sem medir as consequências porque não se consegue sequer vê-las.

Levar em conta esse tempo não é ajudar a pessoa deprimida com quem se convive a se afundar. É apenas compreendê-la. Pode-se querer ajudá-la a acelerar uma rpm que seja, mas não será produtivo emocionalmente inseri-la numa corrida na qual ela não está em condições de estar presente naquele momento.

O tempo, em nossa sociedade, foi mercantilizado. Minutos viraram dinheiro. Mas os processos emocionais não obedecem a essa lógica, por isso a importância de dar tempo para quem não consegue viver o tempo de caça-níqueis que nos empurra dia a dia.

Mais mão estendida e menos julgamento pode ser muito mais proveitoso para quem está passando por esse processo sombrio da alma e para quem está ao lado.

Crica Viegas
Junho de 2016

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