terça-feira, 22 de março de 2016

Juntar os amigos

Estava aqui agorinha mesmo numa brincadeira via Facebook e me dei conta de como gosto de juntar as pessoas. Gosto de receber. De celebrar junto. De gargalhar junto. Gosto de estar perto dos que eu gosto.
Tenho meus momentos introspectivos. Sou introspectiva por natureza, e utilizo o humor e as reuniões de amigos para sair da concha.
Sorte eu tive de casar com alguém que também gosta de receber. Somos um casal de anfitriões. Meu marido, internacionalmente conhecido como Cazalberto, gosta de alimentar as pessoas. Eu falo besteira. Quer ambiente mais legal do que recheado a comida e boas risadas?
Pois é. Mas isso tem sido cada vez mais difícil. A vida anda muito corrida e ninguém tem tempo, nem a gente que gosta tanto. Mas acho que também nos falta vontade de verdade. A aceleração da vida nos faz desejar a nossa cama como o amor da nossa vida, e interagir depois de um dia cheio de trabalho e pepinos fica complicado muitas vezes.
Mas aí é que eu acho que a gente tem que se esforçar. Porque a tendência é que a gente fique cada vez mais só num mundo cada dia mais lotado de gente. O excesso de trabalho tem levado a gente a se divertir cada vez menos, porque simplesmente a gente não tem energia.
Aí eu, Crica promoter-hostess, ando bem chateada, pois não tenho conseguido juntar os queridos na minha casa pra boas risadas, coisa que me dá tanto prazer.
Talvez eu esteja ansiosa. Talvez seja isso.
Sei lá.
É isso.



segunda-feira, 21 de março de 2016

Eram deuses os intelectuais?

Penso que se, a Universidade ou Academia, fosse mais entranhada na sociedade e não encastelada intramuros, com certeza a discussão política que está acontecendo hoje seria mais rica.  Penso que devemos voltar a ser os intelectuais que tanto sonhamos: cara a cara com a galera, palestrando, discutindo,  argumentando, enriquecendo a luta. E não fazer isso apenas em tempos extremos. Mas ainda bem que estamos fazendo isso hoje nesse tempo de treva político - econômica - midiática.
Colegas queridos têm colocado "textão" justamente para trazer um pouco de diversidade na arena de guerra que virou a rede social. Terra de fanatismo e ódio que precisamos,  veementemente, combater com discussões bem fundamentadas.
O ruim é que outros queridos às vezes só lêem o título e puxam o gatilho. Já aconteceu de se perguntar: "mas vc leu o texto?". "Ih, li não. Só li o titulo". E isso aconteceu com amigos pós- graduados. O que me leva a outro ponto: nível de escolaridade quer dizer muito pouco quando somos tomados pela nossa recusa em ouvir o que não concorda com o nosso pensamento.
Penso que nosso papel enquanto intelectuais é chamar pra real, falar e nos posicionar. Não somos deuses nem pretendemos (bom, eu falo aqui por mim), mas vejo meu conhecimento de quase 30 anos de estudo ser desqualificado com palavras até de baixo calão.
Não sou mais do que ninguém porque estudo a sociedade todo esse tempo. Mas não é possível que eu seja uma idiota.
Faço muito textão na tentativa da gente ser informado. Essa é a minha obrigação número um como intelectual: não deixar o conhecimento que me foi transmitido morrer em mim. Conhecimento que não se replica não serve pra nada. E de vaidade acadêmica,  podem crer, eu entendo.
Nesse sentido, estou com Gramsci: intelectual tem que ser orgânico,  estar na sociedade, na escola, no partido, nas instituições. Mas o mais importante: estar na rua no momento que a luta exigir. Esse é o momento.

Crica Viegas
Psicanalista
Doutoranda em Estudos de Linguagem pela UFF
Mestre em Administração/UFF
Assistente Social

Porque um mini - currículo nesse momento foi necessário pra quem tem me chamado de idiota, burra e ignorante.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Democracia, exageros e midia

Este post seria antes do que publiquei ontem. Mas tudo bem. Trouxe do Facebook pra cá.

Penso que estamos vivendo dias surreais e maravilhosos numa democracia. Dias de luta. Dias de sentimento forte e nó na garganta. Há exageros e crimes dos dois lados? Há. Muitos. E acho o crime do PT até mais grave,  por sua herança histórica. Quem se proclama de esquerda não faz as aliancas espúrias que fez o partido do qual um dia fiz parte.
O fato é que hoje vemos algo inédito na nossa jovem República. As pessoas de verdade se envolvendo. Não estou falando dos aproveitadores e marqueteiros de si mesmos. E de muita gente arrogante que quer só o seu pirão e dane-se o resto. Estes existem dos "dois" lados (embora haja muito mais lados nessa história) além de, como se diz, um mimimi sem fim.
Bem... a corrupção endêmica e sistêmica no Brasil chegou ao fundo do poço. Os políticos não conseguem mais se esconder como antes porque o avanço tecnológico nos permite ver em tempo real a vida acontecendo.
Tenho uma crítica à grande mídia,  mas ela na verdade está fazendo o seu papel porque ela tem bem definido o lado em que se encontra e não é ao lado da população, nunca foi. Por isso acho o discurso midiático hipócrita, assim como o da classe política. Ah, e o dos grandes empresários tb, porque sangraram nosso dinheiro por governos e governos junto com as instituições que deveriam nos proteger e se fazem de inocentes. E a nós tb cabe ter muito cuidado para não cair nessa hipocrisia que parece contagiosa...enfim...
Tem muitas particularidades que não cabem por aqui, senão não vai dar pra ler.
De qualquer forma, acho que esse sacode é o maior momento da nossa democracia desde que nasceu. Oremos para que a gente consiga ter alguma saída para que o pobre e o necessitado não venham a sofrer mais ainda. Chega de sangrar os vulneráveis,  de matar a juventude negra, de torturar os indígenas esquecidos nesse debate, assim como os pobres pensionistas de um salário mínimo do INSS falido pelas Georginas e cia da vida. E aí vem sigla para todos os gostos: PT,  PMDB, PSDB, DEM e os milhões de partidos políticos enlameados e canalhas.
Precisamos, na verdade, de uma vez por todas, nos responsabilizar e fazer fazer a nossa parte. Reclamar e apontar o dedo não vai fazer essa democracia dar os próximos passos. E ela PRECISA dar esses passos. Mas temos que jogar com os grilhões e na cadeia quem nos rouba e nunca soube o que se chama consequência dos seus atos sórdidos. Não importa que seja. Nem quanto dinheiro e poder tenha.
Continuarei sendo de esquerda. Porque acredito e continuarei acreditando que só se tem justiça quando ela é social e funciona para todos. Quando o que eu produzo torna torna a vida do pobre mais digna. Quando o que eu compro faz o trabalhador ter o seu salário. Aliás, meu discurso é esquerdista sim, bem esquerdista, e não há do que me envergonhar. Me chamar de comunista não me ofende. Quem assim me chama nem sabe do que se trata, pois o comunismo real e à vera nunca existiu. Ficou na mente e na teoria de Marx que, ingênuo como Rousseau, achava que o homem era bom. De resto, foi o que problematizou o capitalismo de forma mais magistral de que sem notícia. Mas não é disso que estou falando agora.
Apesar que de tudo se resume à luta pelo poder do capital.
É isso. Apenas minha opinião. Não ia conseguir dormir sem falar com alguém sobre isso.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Brasil: cordialidade, luta de classes e democracia

Penso que a falseada cordialidade amplamente pregada no Brasil está sendo posta à prova e desmontada. O que estamos presenciando é a luta de classes em estado brutal. Por mais educados que tentemos ser, todos temos posições a ser defendidas e lados a ser seguidos. Ninguém é neutro nessa História que estamos vivendo em tempo real. Por isso que se torna tão surreal. De tão real que é.
E por isso os xingamentos nos assustam. Porque fomos docilizados historicamente como povo e vemos tudo como afronta.
Mas, luta é, por si só, bruta. É feroz. É insana. Foi assim no início do capitalismo e a cada crise que o sistema enfrenta. E estamos desde 2008 no meio desse furacão mundial. O vento veio com força e chegou aqui.
Um país estratégico como o Brasil não ia passar incólume por isso. O mundo hoje passa por uma ofensiva conservadora. Na Europa estão queimando refugiados, nos EUA um extremo conservador pode virar presidente e, claro, a América Latina (com orgulho!) está na roda. Fatos históricos  aliados a erros dos governantes progressistas, misturados a um processo de combustão midiática que potencializa o ódio de todos os lados nos deixou numa situação grave e decisiva. Por isso, é hora de colocar as ideias no lugar e lutar.
Não estou a incitar o ódio nem algo parecido. Estou falando da natureza da luta. Não se luta com imparcialidade. Não se luta de fato sem lutar.
Estou muito mexida esses dias assim como todos estão. E vejo em jogo um modelo de Estado muito mais do que o discurso do combate à corrupção que quer fazer uma cortina de fumaça no real: estamos aqui falando da luta de classes no Brasil. Um país que precisa, como nunca, passar por um processo de amadurecimento democrático para não descambar para algo que faça sangrar ainda mais a fatia mais desprotegida da população: negros, pobres, indígenas. Nesse momento é preciso esquecer o egoísmo e pensar no coletivo. De verdade. Porque podemos perder a oportunidade que a História está nos dando. A democracia precisa crescer e seguir.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ainda podemos ser mulheres

Hoje é comemorado o Dia da Mulher. Significativo. Forte. Vem da luta por um mundo igualitário. E fico muito feliz por hoje ter uma voz que antes era silenciada.
Mas a verdade é que me embruteci. Agora acho que não posso mais chorar nem ser frágil.

Com orgulho das minhas conquistas, muitas vezes desvalorizo minha mãe,  minhas tias, minhas avós, porque porque as considero submissas demais.
Mas não posso querer que elas pensem como eu.  São de uma geração anterior onde tudo era muito diferente. E elas também foram felizes a seu modo.

Hoje não sou apenas reprodutora, mas muitas vezes me comporto assim, querendo que a escola ou a babá ou a avó eduque meus filhos porque estou cansada ou simplesmente porque posso pagar.

As conquistas me trouxeram independência e doses extras de trabalho e preocupação, e nem sempre consigo lidar com elas. Mas tenho vergonha de falar porque me acharão fraca nesse mundo de mulheres sempre vencedoras nos filmes e capas de revistas.

Não, nem sempre venço.  Às vezes só quero o colo do meu amor pra chorar minhas angústias. E parece que hoje não sou mais livre pra chorar. E por me achar tão dona de mim nem espaço para o amor eu dou.

Hoje não posso escolher ser dona de casa porque sou mal vista diante das minhas amigas, que patrulham minha vida julgando que profissões são dignas ou não. E ser dona de casa é a sarjeta. E me sinto assim muitas vezes lavando a louça. Mas ela é o que sobra da refeição dos meus filhos.

Hoje sou mais feliz porque não sou obrigada a ter filhos. Posso adiar a maternidade porque quero construir minha carreira, que é importante pra mim. Mas sou obrigada a ter no máximo dois para não ser taxada de irresponsável, afinal a vida está difícil. Mesmo eu sabendo que posso dar conta ou que tenho condições, obedeço à convenção social, porque viajar pelo mundo e ser bem sucedida é o lema do nosso tempo. Mas isso é o que está nas revistas femininas, não no meu coração. Como se ter filhos e ter conquistas fossem antagônicos.

Minha vida hoje é mais livre. Posso sair com as amigas para um café ou uma balada porque meu par pode ficar com as crianças. Mas me sinto culpada assim mesmo. Porque a minha jornada de trabalho é exaustiva e tô a fim de ler um livro. Mas como? Não vou me divertir?

A verdade é que hoje posso tudo. Mas continuo não podendo fazer muitas das minhas escolhas porque sou julgada, o que ainda é o meu maior medo. Continuo uma menina assustada precisando de aprovação. Conquistei o mundo, mas continuo meio perdida sem saber o que fazer com isso. Talvez eu só queira mesmo me encontrar e ser eu. Sem patrulha e sem julgamentos.

Feliz Dia da Mulher!

Crica Viegas