quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

2015: o ano que não terminou

Esse ano não está sendo um ano fácil pra ninguém. Estamos pisando em terras movediças política e economicamente falando. O país vivendo um colapso de governabilidade e credibilidade. E no mundo a insegurança, mesmo que motivada por questões diferentes das nossas, se generaliza: guerras, invasões, populações inteiras procurando abrigo onde a morte fique um pouco mais distante. O que pode ser ilusório, já que ninguém sabe quando vai morrer. Mas também ficar na mira de tanques de guerra é apressar algo que não se quer.
A instabilidade é tanta que está difícil se manter são. Parece que o "mens sana, corpore sano" nos abandonou faz tempo. Porque o corpo pode até estar melhor, a expectativa de vida ter aumentado...mas para quem? Para quê? Para chegarmos onde?
Não se acredita mais em heróis.  Estes estão cada vez mais humanizados e vulneráveis como todos nós.  Não temos mais uma utopia que nos dê um horizonte para crermos no futuro. O mundo realmente parece caminhar para um lugar escuro e incerto.
Como manter, então,  a sanidade diante disso tudo?
Creio que o que o apóstolo Paulo diz, ao finalizar o famoso texto da primeira carta ao povo da cidade de Corinto, aquele conhecido "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos...", com a frase "agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor", é algo onde devemos debruçar o nosso pensamento.
A fé. É literalmente acreditar no que não conseguimos enxergar e que parece irreal a olho nu. É estar aberto ao impossível.
A esperança. Alimenta e é alimentada pela fé em dias melhores. Ela é a válvula de segurança  das nossas emoções quando a realidade vil nos amedronta e desencoraja.
O amor. Paulo, uma das cem mentes mais brilhantes de todos os tempos, diz que este é o maior. Pois sem ele não conseguimos enxergar a nós nem ao outro. Sem o amor deixamos a areia movediça do medo nos levar, e não conseguimos ajudar a quem precisa de nós.  Sem o amor nos tornamos intolerantes com nossos erros e com os dos outros. Ficamos cegos de rancor. Surdos ao clamor do aflito e mudos para confortar o próximo.
O ano de 2015 me pareceu muito emblemático da falta destes três combustíveis da humanidade. Por isso a sensação de horror que nos invade, a falta de acreditarmos em quem quer que seja e a falta de vontade de lutar já que "está tudo assim mesmo".
Mas se perdemos a vontade de lutar por um mundo melhor, é porque nos falta amor. E caímos no contrassenso: queremos um mundo melhor para nossos filhos e netos, mas só plantamos cansaço,  intolerância e desamor. O que achamos que vamos colher? A semeadura é trabalhosa. Cansativa. Dura. Mas quando chega a colheita, a alegria retorna.
Vamos semear amor no terreno da vida. Mas não amor retórico.  Mas amor que se materializa. Que dá um prato de comida, que veste. Que pára para ouvir a dor, que se importa de fato. Pois "quem chora enquanto semeia, voltará com alegria e mãos cheias de frutos", como nos diz Davi no livro dos Salmos.
Semear é se dar pelo outro. E isso só conseguimos com amor, quem não vem de nós, mas de Deus, que tudo fez.
Antes de terminar o ano de 2015, vamos refletir e agir.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Nem toda tristeza é depressão.

Mas toda depressão é um estado de tristeza desmedida, acompanhada de uma falta de
desejo para a vida.
Um acontecimento dramático pode desencadear uma tristeza e não propriamente uma depressão. Essa pode acontecer sem nenhum "gatilho" aparente ou com ele, como a morte de alguém , uma separação, ou até mesmo uma grande mudança.
O fato é que o limite é tênue e se tem classificado a tristeza, que é parte estruturante da vida, como um mal. Numa sociedade hedonista como a nossa, onde o prazer e a felicidade não têm antônimos, o efeito tem sido exatamente o contrário: a busca desmedida pela plena felicidade está enlouquecendo as pessoas, e a não realização dessa "meta" em todos os níveis da vida tem nos adoecido.
O fato é que se há alegria na vida, também há a tristeza. Esta é fundamental para que a gente desenvolva qualidades como resiliência, empatia e senso de realidade.
A vida está, de fato, muito difícil. A corrida pelo dinheiro tem nos levado a estados de esgotamento que podem desencadear em qualquer pessoa a ausência vontade total de sair da cama e fazer suas atividades diárias. Quando essa indisposição para desejar a vida vira um estado constante, aí sim podemos ventilar a possibilidade de uma depressão. Mas a tristeza, por mais forte que seja, como num luto, por exemplo, pode passar e nos deixar mais fortes. A depressão não. Ela mina nossas energias e vontade de viver continuamente, mesmo que não tenhamos pensamentos suicidas. É uma dor insuportável que vem acompanhada de tristeza (sim) profunda e limitante das atividades mais rotineiras.
Ou seja, a tristeza existe e vamos ser acometidos por ela se estamos vivos. Os poetas sempre falaram dela lindamente. Inspirou textos belíssimos,  pinturas deslumbrantes, histórias inesquecíveis. Tristeza e depressão são muito parecidas e têm confundido os melhores e mais bem intencionados profissionais que cuidam da alma, como psiquiatras e terapeutas das mais variadas abordagens. O discurso da depressão inundou a vida e, infelizmente, com intuito mercadológico, para entorpecermos com fármacos nossa tristeza estruturante, transformando-a em patológica indiscriminadamente. Se ouvíssemos mais os sinais que a tristeza que faz parte da vida nos dá e que temos ignorado, muitos de nós não estariam de fato tão deprimidos.