sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Uma carta aos meus filhos

Quero dizer a vocês que a vida de adulto é muito chata. Pesada. Tão cheia de obrigações que se a gente não cuidar todos os dias a gente não encontra espaço pra fazar o que se gosta. Deveria ser ao contrário.
Mas é por isso mesmo que resolvi escrever umas linhas pra que vocês se lembrem de algumas coisas que são tão importantes e quem é tão jovem nem sabe porque às vezes nunca lhe foram ditas.
Vocês serão exigidos muito cedo a decidir o que serão para o resto da vida. Se já souberem, que bom. Se não, não se sintam diminuídos porque todo mundo diz que vocês estão perdendo tempo. É melhor gastar alguns poucos anos no início da vida para descobrir quem a gente é do que adoecer aos 30 sem saber pra onde ir. Porque profissão é amor em primeiro lugar. Não dinheiro. E ponto. Quer ser aviador? Seja. Quer fugir com o circo? Seja feliz.
É isso que eu desejo pra vocês. Felicidade. Mas não é a de comercial,  a efêmera. Felicidade vazia é tudo menos felicidade. Ela é algo que se constrói de dentro pra fora e não é a vida material que determina. É o nosso espírito.
Não se sintam obrigados a ser o que não querem porque a sociedade diz que tem que ser assim. Construam-se como sujeitos das suas vidas. Tomem as rédeas. Delegar a outros a nossa vida e o que podemos fazer de pior por nós mesmos.
Sejam fortes e corajosos. O mundo aí fora tem andado vil. Intolerante com tudo e todos. Agarrem suas idéias com unhas e dentes. Mas não se envergonhem de mudar de opinião. Só não muda quem está morto.
Amem profundamente. Porque só o amor faz suportar o sofrimento. O amor por Deus, por si e pelo próximo. Não se esquivem de ajudar quem precisa. Mas ajudem e deixem seguir. A vida do outro é de sua própria escolha. Se vocês ajudarem e ninguém voltar para agradecer, tenham certeza que vocês fizeram a sua parte. Ajudar e controlar não é ajuda.
Sejam abertos a novas experiências. Experimentem. Conheçam pessoas com idéias totalmente diferentes das de vocês. Saiam da zona de conforto e dialoguem com quem discorda das suas idéias e crenças. É de uma riqueza que dinheiro nenhum paga.
Respeitem os seus parceiros de amor. Sejam gentis. Estejam junto do ser amado na hora da adversidade. Dividam as preocupações. Não deixem o outro se sentir sozinho num momento ruim. Quando a tempestade vem, a gente resiste melhor abraçado ao outro, porque, se o vendaval nos levar para algo desconhecido, pelo menos vocês estarão juntos e poderão recomeçar.
Amor é algo difícil de manter. Casamento, nem se fala. Mas é uma experiência de troca das mais ricas que existem. Nele aprendemos a amar quando tudo diz não. Por isso, se vocês se casarem, não entrem já deixando a mochila arrumada na porta de saída.  Entreguem-se. Vivam a vida a dois entendendo que as pessoas não são descartáveis. O amor tem seguido a lógica do mercado: vou na prateleira, uso, deu um defeito, eu jogo fora. Isso a gente faz com celular. Pessoas são mais complexas e sempre merecem uma segunda chance.
Amem seus filhos. Mas criem pessoas livres. Deixem-os ir. E isso é o mais difícil. Mas é igualmente prazeroso quando nos tornamos um porto seguro para os filhos, onde eles podem atracar e partir, e voltar, e partir de novo.
Sejam luz para os que encontrarem. Produzam memórias que valham a pena ser lembradas. A velhice é povoada delas e será mais leve se vocês tiverem a paz de saber que vocês foram vocês mesmos e produziram bons frutos. Sejam esses frutos o afeto, a gratidão e a sabedoria.
Vocês têm tanta vida ainda. Não desperdicem com rancor e inveja. Construam seus próprios tesouros.
Sejam para os outros as pessoas que vocês sonham em ter ao seu lado. Perdoem sempre. Mas não destruam sua autoestima por ninguém. Porque isso deixará vocês incapazes de amar. E isso é estar morto mesmo em vida.
Ao final das contas tudo se resume ao amor. Porque o que aprendi desejo a vocês:
"Ama a teu Deus com toda a tua força e o teu entendimento (porque ter fé não é ser burro) e ama teu próximo como a ti mesmo". Ou seja, amem a si mesmos e ao outro com a mesma intensidade.
   

Um comentário:

Lúcia Soares disse...

Lindo, Crica.
Tomara que seus filhos e muita gente mais leia e absorva totalmente suas palavras.
Penso como você e, por mais duro que seja, a vida é esta: deixar os filhos seguirem seus próprios passos, mas nunca esquecendo sua base.
Amar e respeitar seu semelhante é a grande lição.
Beijo.