quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Depois que me tornei psicanalista

Sou uma jovem psicanalista. Não na idade, mas na clínica. Passei por alguns anos de estudo e quase uma década de análise pessoal, coisas que nunca mais deixaram de me acompanhar, antes de me autorizar a este ofício. (Lacan diz que o analista autoriza-se por si mesmo, algo que gera uma boa polêmica).
O fato é que ter me tornado psicanalista tem me trazido poucos benefícios segundo o pensamento da nossa sociedade. 
Não me tem trazido dinheiro. Pois quase dois anos na área tem sido praticamente só de investimento: análise,  supervisão, grupos de estudo e muitos livros. Ainda resolvi de cara abrir meu próprio consultório e não sublocar de outro profissional  como é a prática comum.  Acho que pela minha quase meia idade eu me sentiria desconfortável em estar num ambiente que não tivesse algo de mim. E como todo começo,  poucos pacientes ainda. Ou seja, escolhi a profissão errada para ter sucesso financeiro. 
No quesito amigos não foi muito animador. Sempre fui uma amiga ouvinte, mas também falante. Mas saber que me tornei psicanalista deixou uns atirados, querendo conselhos e receitas (coisa que não é da ordem desse ofício) e tenho que lembrar que também como, durmo e sofro de estresse (sou psicanalista, não monge do Nepal). Outros eu perdi. Simples e dolorido assim. Amigos queridos que vivem relacionamentos truncados não me quiseram mais em suas vidas. Um afastamento silencioso mas terrivelmente doloroso. Foram. Sem me avisar. Me tornei coleguinha sem ser avisada depois de duas décadas.
Pelo lado familiar uns acham cool, outros estranho (mas já me achavam estranha, então não mudou nada), filhos adolescentes acham maneiro pra dizer pros amigos e parceiro se acha na berlinda do divã em qualquer assunto mais sério. Se for discutir a relação, vem inevitavelmente a pergunta: "você está me analisando?". Sim, porque se vamos discutir nossa vida ela precisa ser analisada. Não, porque não estou psicanalisando nosso amor. Não sou nossa terapeuta.
Os benefícios de ter me tornado o que me tornei está tão nas entrelinhas que tem que ser sagaz pra perceber. Não é uma alegria de torcida: "Eeeeee,  sempre sonhamos em ter um psicanalista na família!!!".  Isso a gente vê com quem escolhe ser médico, advogado...atleta. Mas psicanalista não.
Pra bancar essa escolha numa sociedade como a nossa é preciso saber se sentir feliz sozinho com a escolha que se fez. Quase como um cientista de óculos fundo de garrafa que manuseia tubos de ensaio contendo coisas microscópicas. Quem não vive essa vida não sabe o que é ser feliz a cada pequeníssima mas fundamental descoberta.
E acho que vai por aí. Numa sociedade cada vez mais veloz e enlatada escolhi na meia idade uma profissão que lida com o ser humano naquilo que é lento, que ele repete e na maioria das vezes deteriora suas relações pela falta de novidade. E pra piorar tentamos recriar as cenas mais traumáticas de sua vida, o que vai fazê-lo sofrer. Quem vai querer passar por isso? É quem vai ser o louco de andar a 10km por hora quando tudo está na velocidade da luz? Poucos, cada vez menos. Por outro lado, esse excesso de velocidade está enlouquecendo as pessoas. Mas elas querem os entorpecentes de ação imediata, e isso a Psicanálise não faz e não é.
Por isso digo que escolhi a profissão para a qual fui vocacionada. Pois nunca me senti confortável no mundo da aparência e do excesso, e sempre li entrelinhas. Sempre pensei demais nos sonhos. Sempre fui uma observadora e uma analista amadora das palavras que saem da boca das pessoas. Os muitos anos de análise me levaram a concluir que eu tinha e fazia coisas de um psicanalista mas sem seus instrumentos. Isso me levou ao estudo intenso, ao mergulho no mundo Freudiano e do discurso lacaniano (confesso que sou mais quadradinha igual a Freud e por isso às vezes acho Lacan muito chato). 
E aqui estou. Psicanalista. Com menos amigos e família me olhando com ar de "mas ela era tão inteligente pra gostar dessas maluquices...". Mas aí percebo que esse quadro não se apresenta assim por causa da minha escolha. Mas porque a humanidade está assim: cada vez menos amigos, famílias com expectativas que não se concretizaram e dinheiro? Bom, não faço parte das 8 famílias que detém toda "la plata" do globo terrestre, então vou feliz pro consultório sabendo que ali vou realizar grande parte do que sou. 
Bem vinda ao mundo da Psicanálise pra mim!!!
  

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