terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bonner e Maju em Paris: um caso de racismo travestido de qualificação

Passeando pelo facebook vejo a chamada da página do Pragmatismo Político sobre o fato de William Bonner ter designado a moça do tempo, a conhecida jornalista (sabiam que ela era???) Maju, para cobrir a conferência COP-21, Conferência do Clima a ser sediada em Paris . Aqui da pra ver a reportagem e saber detalhes.
O que me chamou atenção foi o número de comentários ácidos e discriminatórios direcionados à "negra que não sabe o que está fazendo ali, provavelmente veio do setor de faxina e serviços gerais e caiu ali de paraquedas".
Bom, em primeiro lugar, penso que ela não estaria no horário nobre da emissora, com a qual aliás, não simpatizo, se fosse uma mulher burra. Pois ela já tem um imenso obstáculo: ser negra num país racista. O argumento da vez é a falta de qualificação. Mas de que qualificação se está falando? Se ela está dando a cara pra bater e está sendo aprovada não é que se siga a ordem da indústria e ganhe oportunidades? Ahhh, esqueci que essas só podem ser dadas oportunidades ao brancos, ops, a quem merece. Por isso se chama meritobrancocracia.
Depois de ler tanta asneira comentei que qualificação é algo subjetivo, pois diploma não é igual a qualificação. "Ah, mas ela não é especialista em sustentabilidade!", falou algum especialista de plantão. E aí terminei meu comentário: " porque o primeiro pensamento das pessoas é: a mucama foi pra cama com o patrão". Lógico!!! Afinal, como uma negra linda ia conseguir uma viagem a Paris se não estivesse na cama do editor chefe Bonner???? Fátima, preciso ter um Encontro com vc, urgente, pra te contar um babado!!!!
Conta pra mim aqui, vc que viu a reportagem. Não foi a primeira coisa que vc pensou? E digo: pensei tb, no meu caso só não foi o primeiro pensamento, mas foi e me dei um tapa na cara pra acordar do racismo automático nosso de cada dia.
Por que ela não pode ir a Paris? Por que ela não fala bem? Não sabe nada sobre clima? Tem uma aparência que choque alguém? Se ela tivesse alguma dessas características não estaria na maior emissora do país (que é um lixo, assunto pra outro post) no horário mais caro.
Não a conheço. Puxei uma Wikipédia e vi que tem formação em jornalismo e passou pela TV Cultura de SP, entre outras atividades na área. Mas fico impressionada como as pessoas saem digitando asneiras racistas sem sequer...sem sequer nada! Não se deve denegrir NINGUÉM por cor ou posição social, ou cultura. Posso ser phD em Matemática e ser uma idiota política. Posso ser uma especialista em genética e ser um zero à esquerda em Sociologia. E provavelmente serei. Porque ninguém sabe tudo. De cultura africana, então...somos os negros mais ignorantes de nossa a ancestralidade que eu conheço. Como assim? Negros? Simmmmm. Negros. Pretos. Coloridos. Vou aliviar pra vcs: mestiços com os pés e as mãos na África.
Sorry se vc se achava brasileiro e branco. Num país como o nosso isso é geneticamente impossível. E olha que sou uma idiota em genética.
Não gostou???
Mingula.
Fui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Depois que me tornei psicanalista

Sou uma jovem psicanalista. Não na idade, mas na clínica. Passei por alguns anos de estudo e quase uma década de análise pessoal, coisas que nunca mais deixaram de me acompanhar, antes de me autorizar a este ofício. (Lacan diz que o analista autoriza-se por si mesmo, algo que gera uma boa polêmica).
O fato é que ter me tornado psicanalista tem me trazido poucos benefícios segundo o pensamento da nossa sociedade. 
Não me tem trazido dinheiro. Pois quase dois anos na área tem sido praticamente só de investimento: análise,  supervisão, grupos de estudo e muitos livros. Ainda resolvi de cara abrir meu próprio consultório e não sublocar de outro profissional  como é a prática comum.  Acho que pela minha quase meia idade eu me sentiria desconfortável em estar num ambiente que não tivesse algo de mim. E como todo começo,  poucos pacientes ainda. Ou seja, escolhi a profissão errada para ter sucesso financeiro. 
No quesito amigos não foi muito animador. Sempre fui uma amiga ouvinte, mas também falante. Mas saber que me tornei psicanalista deixou uns atirados, querendo conselhos e receitas (coisa que não é da ordem desse ofício) e tenho que lembrar que também como, durmo e sofro de estresse (sou psicanalista, não monge do Nepal). Outros eu perdi. Simples e dolorido assim. Amigos queridos que vivem relacionamentos truncados não me quiseram mais em suas vidas. Um afastamento silencioso mas terrivelmente doloroso. Foram. Sem me avisar. Me tornei coleguinha sem ser avisada depois de duas décadas.
Pelo lado familiar uns acham cool, outros estranho (mas já me achavam estranha, então não mudou nada), filhos adolescentes acham maneiro pra dizer pros amigos e parceiro se acha na berlinda do divã em qualquer assunto mais sério. Se for discutir a relação, vem inevitavelmente a pergunta: "você está me analisando?". Sim, porque se vamos discutir nossa vida ela precisa ser analisada. Não, porque não estou psicanalisando nosso amor. Não sou nossa terapeuta.
Os benefícios de ter me tornado o que me tornei está tão nas entrelinhas que tem que ser sagaz pra perceber. Não é uma alegria de torcida: "Eeeeee,  sempre sonhamos em ter um psicanalista na família!!!".  Isso a gente vê com quem escolhe ser médico, advogado...atleta. Mas psicanalista não.
Pra bancar essa escolha numa sociedade como a nossa é preciso saber se sentir feliz sozinho com a escolha que se fez. Quase como um cientista de óculos fundo de garrafa que manuseia tubos de ensaio contendo coisas microscópicas. Quem não vive essa vida não sabe o que é ser feliz a cada pequeníssima mas fundamental descoberta.
E acho que vai por aí. Numa sociedade cada vez mais veloz e enlatada escolhi na meia idade uma profissão que lida com o ser humano naquilo que é lento, que ele repete e na maioria das vezes deteriora suas relações pela falta de novidade. E pra piorar tentamos recriar as cenas mais traumáticas de sua vida, o que vai fazê-lo sofrer. Quem vai querer passar por isso? É quem vai ser o louco de andar a 10km por hora quando tudo está na velocidade da luz? Poucos, cada vez menos. Por outro lado, esse excesso de velocidade está enlouquecendo as pessoas. Mas elas querem os entorpecentes de ação imediata, e isso a Psicanálise não faz e não é.
Por isso digo que escolhi a profissão para a qual fui vocacionada. Pois nunca me senti confortável no mundo da aparência e do excesso, e sempre li entrelinhas. Sempre pensei demais nos sonhos. Sempre fui uma observadora e uma analista amadora das palavras que saem da boca das pessoas. Os muitos anos de análise me levaram a concluir que eu tinha e fazia coisas de um psicanalista mas sem seus instrumentos. Isso me levou ao estudo intenso, ao mergulho no mundo Freudiano e do discurso lacaniano (confesso que sou mais quadradinha igual a Freud e por isso às vezes acho Lacan muito chato). 
E aqui estou. Psicanalista. Com menos amigos e família me olhando com ar de "mas ela era tão inteligente pra gostar dessas maluquices...". Mas aí percebo que esse quadro não se apresenta assim por causa da minha escolha. Mas porque a humanidade está assim: cada vez menos amigos, famílias com expectativas que não se concretizaram e dinheiro? Bom, não faço parte das 8 famílias que detém toda "la plata" do globo terrestre, então vou feliz pro consultório sabendo que ali vou realizar grande parte do que sou. 
Bem vinda ao mundo da Psicanálise pra mim!!!
  

domingo, 15 de novembro de 2015

Oremos pelo mundo

Oremos
Pelo mundo que convulsiona
Pela natureza que de tão enojada
Vomita seus habitantes em terremotos, tsunamis e furacões 
Oremos pelo mundo que não suporta mais tanta extração, extorsão das almas que tentam se refugiar em vão em terras distantes
Pois latitude e preconceito estabelecem as fronteiras
Oremos pelas crianças, dizimadas na violência dentro seus lares, onde o abandono é amparado pelo que se diz Estado protetor, mas que nada faz a não ser encher os abrigos de meninos e meninas que depois passarão às prisões, tendo nascido e morrido sem ver o sol da justiça.
Oremos por essas meninas tornadas mulheres tão cedo por uma sociedade que as vê como objeto obsceno pelos olhares dos estupradores reais e virtuais.
Oremos por elas.
Oremos pelos meninos sem futuro, que muitas vezes não querem estudar porque aprendem pela tv que virarão estrelas do futebol, fantasia megalomaníaca em uma realidade rarefeita.
Oremos pelo mundo.
Oremos pelas mulheres, de quem os direitos, que mal estavam assegurados, vão sendo subtraídos como um útero infecundo.
Oremos pela humanidade que, quanto mais desenvolvida em bens, mais estúpida se torna, incapaz de amar o de perto e o de longe.
Oremos.
Muitas vezes nosso grito não é ouvido. Outras ele é silenciado. Por isso nossas gargantas doem, sedentas de alívio.
Então oremos.
Oremos. Oração é luta em forma de súplica.
Oremos porque o mundo está morrendo e arrastando para o fim do amor todo ser vivente.
Oremos para que esse fim não nos tire a vontade de continuar lutando.
Somos Mariana
Somos Amarildo
Somos Malala
Somos Madeleine
Somos Francisco
Somos Cláudia
Somos Bernardo
Somos Eduardo
Somos Jean Charles
Somos Carolina
Somos João Vitor
Somos Tim Lopes
Somos Yuca
Somos Stuart

Somos as crianças esquecidas, cegas e surdas
Somos os filhos da praça de Mayo
Somos os judeus exterminados
Somos os africanos escravizados
Somos Alemão
Somos Maré
Somos Osasco
Somos Rocinha
Somos Rio Doce
Somos Amazônia
Somos Egito
Somos Nigéria
Somos Berlim
Somos Grécia
Somos França
Somos os jovens desempregados da Espanha
Somos os refugiados da Síria
Somos Israel sitiada
Somos os mortos do World Trade Center
Somos os nordestinos na seca
Somos os mineiros afogados na lama
Oremos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Uma carta aos meus filhos

Quero dizer a vocês que a vida de adulto é muito chata. Pesada. Tão cheia de obrigações que se a gente não cuidar todos os dias a gente não encontra espaço pra fazar o que se gosta. Deveria ser ao contrário.
Mas é por isso mesmo que resolvi escrever umas linhas pra que vocês se lembrem de algumas coisas que são tão importantes e quem é tão jovem nem sabe porque às vezes nunca lhe foram ditas.
Vocês serão exigidos muito cedo a decidir o que serão para o resto da vida. Se já souberem, que bom. Se não, não se sintam diminuídos porque todo mundo diz que vocês estão perdendo tempo. É melhor gastar alguns poucos anos no início da vida para descobrir quem a gente é do que adoecer aos 30 sem saber pra onde ir. Porque profissão é amor em primeiro lugar. Não dinheiro. E ponto. Quer ser aviador? Seja. Quer fugir com o circo? Seja feliz.
É isso que eu desejo pra vocês. Felicidade. Mas não é a de comercial,  a efêmera. Felicidade vazia é tudo menos felicidade. Ela é algo que se constrói de dentro pra fora e não é a vida material que determina. É o nosso espírito.
Não se sintam obrigados a ser o que não querem porque a sociedade diz que tem que ser assim. Construam-se como sujeitos das suas vidas. Tomem as rédeas. Delegar a outros a nossa vida e o que podemos fazer de pior por nós mesmos.
Sejam fortes e corajosos. O mundo aí fora tem andado vil. Intolerante com tudo e todos. Agarrem suas idéias com unhas e dentes. Mas não se envergonhem de mudar de opinião. Só não muda quem está morto.
Amem profundamente. Porque só o amor faz suportar o sofrimento. O amor por Deus, por si e pelo próximo. Não se esquivem de ajudar quem precisa. Mas ajudem e deixem seguir. A vida do outro é de sua própria escolha. Se vocês ajudarem e ninguém voltar para agradecer, tenham certeza que vocês fizeram a sua parte. Ajudar e controlar não é ajuda.
Sejam abertos a novas experiências. Experimentem. Conheçam pessoas com idéias totalmente diferentes das de vocês. Saiam da zona de conforto e dialoguem com quem discorda das suas idéias e crenças. É de uma riqueza que dinheiro nenhum paga.
Respeitem os seus parceiros de amor. Sejam gentis. Estejam junto do ser amado na hora da adversidade. Dividam as preocupações. Não deixem o outro se sentir sozinho num momento ruim. Quando a tempestade vem, a gente resiste melhor abraçado ao outro, porque, se o vendaval nos levar para algo desconhecido, pelo menos vocês estarão juntos e poderão recomeçar.
Amor é algo difícil de manter. Casamento, nem se fala. Mas é uma experiência de troca das mais ricas que existem. Nele aprendemos a amar quando tudo diz não. Por isso, se vocês se casarem, não entrem já deixando a mochila arrumada na porta de saída.  Entreguem-se. Vivam a vida a dois entendendo que as pessoas não são descartáveis. O amor tem seguido a lógica do mercado: vou na prateleira, uso, deu um defeito, eu jogo fora. Isso a gente faz com celular. Pessoas são mais complexas e sempre merecem uma segunda chance.
Amem seus filhos. Mas criem pessoas livres. Deixem-os ir. E isso é o mais difícil. Mas é igualmente prazeroso quando nos tornamos um porto seguro para os filhos, onde eles podem atracar e partir, e voltar, e partir de novo.
Sejam luz para os que encontrarem. Produzam memórias que valham a pena ser lembradas. A velhice é povoada delas e será mais leve se vocês tiverem a paz de saber que vocês foram vocês mesmos e produziram bons frutos. Sejam esses frutos o afeto, a gratidão e a sabedoria.
Vocês têm tanta vida ainda. Não desperdicem com rancor e inveja. Construam seus próprios tesouros.
Sejam para os outros as pessoas que vocês sonham em ter ao seu lado. Perdoem sempre. Mas não destruam sua autoestima por ninguém. Porque isso deixará vocês incapazes de amar. E isso é estar morto mesmo em vida.
Ao final das contas tudo se resume ao amor. Porque o que aprendi desejo a vocês:
"Ama a teu Deus com toda a tua força e o teu entendimento (porque ter fé não é ser burro) e ama teu próximo como a ti mesmo". Ou seja, amem a si mesmos e ao outro com a mesma intensidade.