domingo, 25 de outubro de 2015

A menina que rabiscava livros

Muito introvertida. Silenciosa. Tanto que quem a conheceu depois custa a acreditar. Mas a verdade é que ela não queria viver nesse mundo. Só no da sua imaginação. Que era nevoada e cinza.
Ela amava livros. Mas não os tinha. Sua vontade era ler todos os que encontrasse. Mas a sua busca continuou por muito tempo ainda.
A biblioteca pública da cidade do interior era o que bastava para trazer algum sorriso àqueles lábios que pouco se mexiam. Não queria gastar palavras, pois era a única coisa que tinha dentro de si. Não havia bonecas, roupas, mimos. Palavras eram o seu bem mais precioso. Por isso ela as guardava para si.
As tardes na biblioteca eram libertadoras. Ia desde dicionários a livros de História e romances. Não possuía preconceito intelectual. Seus olhos devoravam textos como bebês famintos, e o que conseguia digerir passava para o caderno a lápis. As outras pessoas a olhavam escrever porque era canhota e possuía aquele maneirismo estranho dos canhotos para pegar no lápis e correr a mão sinistra pelo caderno. Sinistros eram chamados os canhotos na Idade Média, ela aprendeu num dicionário velho e cheio de manchas amarelas. Um dia ganhou um dicionário de espanhol com essa marca de tão velho, mas isso a deixava mais apaixonada por ter uma relíquia. "Relíquias são coisas únicas e preciosas", também aprendeu no pedaço de infância gasto naquela biblioteca e fez sua interpretação livre e inocente.
Os tão sonhados livros só chegaram depois dos 20 anos. Era muito tempo de palavras guardadas pra que eles ficassem intactos. A cada página lida, comentários rabiscados pelos lados, escritos tortos e muitas vezes com nenhuma conexão com o texto impresso. Era só pegar o lápis que as palavras brotavam. Incontroláveis. Donas de si. Estavam decididas e ser escritas.
E assim foi com todo livro que lhe chegou à mão.  Ela sentia que ele só era verdadeiramente sorvido se fosse impregnado de rabiscos, desenhos de estrelas e assinaturas do próprio nome.
Quase mais 20 anos se passaram e seu pai faleceu. Ele, que não havia lhe dado na infância  o que ela mais queria, que era o seu amor, lhe deixou apenas uma lapiseira, que ele usava nas nontem afora em que se debruçava na prancheta para fazeu croquis  e projetos.  Aquela lapiseira foi companheira de uma vida e sempre esteve viva nas poucas memórias da meninas que rabiscava livros.
Depois de quase dez anos de sua morte, ela pode perceber que aquele foi o maior ato de amor de seu pai. Porque ela não sabia, mas era ela a sua escritora-menina. E ele a achou digna de uma lapiseira a qual, para a silenciosa criança dos olhos tristes, nenhum diamante se compara. Pois cada vez que ela, quase na meia idade, pega o fino artefato para rabiscar seus livros e fazer conexões com o infinito, também se conecta com ele e ouve um "eu sempre te amei, filha."