quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A análise como uma escolha.

Muitas vezes não conseguimos controlar o mal que nos habita. A raiva tem seu ápice, outras vezes a tristeza. Fazem parte de nós, porque somos seres sombrios muitas vezes.
O que pode ser fecundo quando se consegue comunicar que não se está bem, assim como fazer uma breve retirada do espírito de cena, no sentido de procurar se acalmar e ouvir o que o interior tem a dizer. Tem horas que ele é duro. Pois podemos estar insuportáveis pra aqueles que nos amam. É necessário respeitar também o outro e segurar a nossa insatisfação. Porque no fundo ela é com a gente mesmo. Por não saber lidar com a vida que escolhemos e por não ter conseguido realizar certas coisas, por não nos sentirmos queridos, desejados. Então cabe trabalhar pra que seja canalizado para o caminho da sublimação. Para o nosso próprio bem.
Pois os dias tem sido negros. O mundo e nossa própria vizinhança recheados de notícias ruins, desgraças,  mortes, injustiça. Não é fácil se manter bem com essa vibe gigantesca. Aguentar a si mesmo  já é difícil, que dirá aguentar esse mundo.
Mas o trabalho é árduo e individual. Como diz Lacan, no um a um. Ninguém pode nos mudar e não podemos mudar as pessoas. Só podemos promover mudanças em nós mesmos, e isso à custa de muito esforço emocional. E cansa. Exaure. Mas profundamente transformador. Pois não podemos exigir um mundo melhor, que é um discurso legítimo, se não nos esforçarmos para que o nosso bem chegue ao outro pela empatia, amizade, compaixão, amor. "Ama a teu próximo como a ti mesmo" resume bem isso.  Mas até chegarmos nesse amor isso envolve nos deparar com nossos próprios demônios como uma primeira etapa. Não somos bons como nos apresentamos. Temos inveja, ciúme, ansiamos a vida de alguém que achamos mais interessante que a nossa. Estamos longe de ser bonzinhos. E digo mais. A luta interna não é fifty-fifty. Muitas vezes somos tomados pelo mal que há em nós e, se sobra dez por cento de luz, que a usemos pra percorrer o vagão escuro da nossa alma e encontrar a porta de saída.
Fazer isso sozinho é muito difícil. Possivelmente precisaremos de ajuda. A análise entra aí como uma excelente escolha. Sim, porque é preciso escolher diariamente quem seremos para nos e para o mundo.
E falo como psicanalista mas antes como paciente. Como paciente volto a ser a criança do trauma, a filha abandonada na cena um. Como paciente revivo minha solidão no divã, choro, tenho crise de solidão (olha o sintoma se apresentando...). Como paciente digo ao meu analista que ele está errado, que ele não sabe o que sinto. E não sabe mesmo. Ele é um sujeito que supomos que sabe. Mas é só suposição.   Pois ele só pode trabalhar com minhas palavras. A análise é uma análise das palavras que digo e das que não consigo dizer. Somadas aos sentimentos que as carregam. E são sentimentos ruins em sua grande parte. Mas que precisam entrar em cena na medida do possível para cada um para que sejam ouvidos. Pelo analista e pelo próprio paciente. Mesmo que seja pelo silêncio.
E com esse percurso poderemos nos abrir ao amor na cena seguinte. Porque fazer análise é falar de amor. Do amor não recebido. Do recebido em excesso. Do não correspondido. Do amor que aprisiona. Do amor adoecido.
Ao lançar luz nesse amor escurecido, mofado, recalcado no inconsciente, há grandes chances de que ele ganhe oxigênio e volte a correr livremente pelos córregos do ser. Só ao ver quem se é de fato é que se pode promover alguma mudança no vir-a-ser, e o sintoma ser canalizado para o gozo, não aquele que nosso sintoma procura para se acomodar, mas o gozo de vida,  que nos liberta da morte de nós mesmos. Podemos escolher gozar debruçados na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza da vida ou na pobreza do espírito.  É uma questão de escolher se abrir ou se fechar. E no processo analítico as duas coisas ocorrerão. O comprometimento do paciente aliado ao bom manejo do analista procurarão os tons, intensidades e nuances de cada um, e tanto o abrir como o fechar se tornarão momentos e não definitivos.

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