segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A psicanálise é elitista?

Uma das coisas que ouço com alguma frequência é de que o tratamento psicanalítico é para quem tem alto poder aquisitivo. Normalmente os menos favorecidos têm acesso pela via de clínicas - escolas situadas em universidades, mas em consultório particular é mais difícil.  O acesso realmente fica mais restrito por causa do valor.
A Psicanálise de base freudiana e lacaniana, essas duas vertentes com as quais tenho vivência, tem historicamente uma postura mais distanciada do social. O tratamento visando àquele sujeito único, o que está correto de acordo com a prática psicanalitica, parece que, de tanto individualizar esse sujeito, acaba por retirá-lo do contexto social em que vive. A Psicanálise não tem se ocupado tanto quanto deveria, penso eu, do contexto de vida do paciente que vai para além do familiar ou dos laços mais próximos.
Não estou aqui pregando um contrassenso; a escuta analítica é, de fato, do sujeito, do que este sujeito carrega em si, de como o real do corpo simboliza a vida com o suporte do imaginário.  E isso realmente se dá no famoso "um a um" lacaniano.
Freud fala no seu texto "Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise", porque em sua época a classe médica era por excelência o grupo do qual ele fazia parte que praticava a escuta analítica, fala muito claramente sobre a impossibilidade de uma análise gratuita por alguns motivos: pelo fato de a relação com o dinheiro ter um cunho altamente investido de sexualidade e pelo valor do trabalho do analista. Colocações coerentes, a meu ver (se colocar no google esse título é facílimo de achar).
A partir de Lacan parece que a questão do dinheiro ficou mais forte. Ele era um psiquiatra e psicanalista que valorizava seu trabalho e que gostava de dinheiro (seria um sintoma?). Vendo documentários sobre ele com pessoas que tinham sido seus pacientes, vários destacaram essa caracteristica: por vezes ele pegou a carteira da mão do paciente ao ser perguntado quanto tinha sido a sessão, retirava todo o dinheiro e dizia que "por hoje isso está bom". Confesso que isso me chocou um pouco na hora. Culpa da minha formação de origem como assistente social. E vejo que essa prática de "me dê tudo o que tem porque meu trabalho vale" tem sido levada às últimas consequências. E aí vem a resposta do titulo: nesse sentido a Psicanálise tem se mostrado de um modo geral elitista sim. E ouso em dizer: elitista e arrogante.
Longe de querer desvalorizar o trabalho árduo de um analista. É um trabalho minucioso, interpretativo das entrelinhas, desgastante mentalmente. E por isso tem sim seu valor. E aqui acho que o princípio do "um a um" pode ser aplicado com a visão socio-econômica do paciente sim, no sentido de não querer lhe arrancar a pele porque ele já irá se despir dolorosamente dela durante o processo terapêutico. Nem todos podem se dar o luxo de estar num divã, ele próprio um dos símbolos da "altivez" psicanalítica, a partir do qual se criou uma mística por ser ele um importante artefato do processo analítico quando originalmente Freud o instituiu porque ele tratava pacientes por 12 a 14 horas por dia e não queria que suas expressões faciais pudessem interferir na fala do paciente. Claro que o divã não é só isso. Ele é parte de um processo terapêutico e não é oferecido ao paciente até que a relação de transferência com o analista esteja estabelecida e se tenha saído da fase inicial do tratamento. Mas penso que democratizar o acesso é uma arma valiosa para difundir a Psicanálise. Mas será que se quer isso ou a vontade de ganhar muito dinheiro de um único paciente é mais importante? Será esse um sintoma da própria prática dos analistas? 
Escuto muito que "Psicanálise não é para todos". E não é mesmo. Pois ela é um mergulho tão profundo no ser que muitos não conseguem suportar. Só que essa frase tem sido interpretada somente pela via econômica. Será mesmo que essa deve ser a única interpretação?  Se é, esta em desacordo com a própria teoria psicanalítica,  principalmente lacaniana, onde a cadeia significante passa como num letreiro luminoso (esse termo está nos Escritos de Lacan) onde os sentidos são tudo menos um só. 
Esse texto não é uma crítica a nenhum colega. É apenas um convite à reflexão do que queremos tornar a Psicanálise num mundo onde o dinheiro é o sintoma social. Quem tem, ótimo. Quem não tem, sinto muito. 


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A análise como uma escolha.

Muitas vezes não conseguimos controlar o mal que nos habita. A raiva tem seu ápice, outras vezes a tristeza. Fazem parte de nós, porque somos seres sombrios muitas vezes.
O que pode ser fecundo quando se consegue comunicar que não se está bem, assim como fazer uma breve retirada do espírito de cena, no sentido de procurar se acalmar e ouvir o que o interior tem a dizer. Tem horas que ele é duro. Pois podemos estar insuportáveis pra aqueles que nos amam. É necessário respeitar também o outro e segurar a nossa insatisfação. Porque no fundo ela é com a gente mesmo. Por não saber lidar com a vida que escolhemos e por não ter conseguido realizar certas coisas, por não nos sentirmos queridos, desejados. Então cabe trabalhar pra que seja canalizado para o caminho da sublimação. Para o nosso próprio bem.
Pois os dias tem sido negros. O mundo e nossa própria vizinhança recheados de notícias ruins, desgraças,  mortes, injustiça. Não é fácil se manter bem com essa vibe gigantesca. Aguentar a si mesmo  já é difícil, que dirá aguentar esse mundo.
Mas o trabalho é árduo e individual. Como diz Lacan, no um a um. Ninguém pode nos mudar e não podemos mudar as pessoas. Só podemos promover mudanças em nós mesmos, e isso à custa de muito esforço emocional. E cansa. Exaure. Mas profundamente transformador. Pois não podemos exigir um mundo melhor, que é um discurso legítimo, se não nos esforçarmos para que o nosso bem chegue ao outro pela empatia, amizade, compaixão, amor. "Ama a teu próximo como a ti mesmo" resume bem isso.  Mas até chegarmos nesse amor isso envolve nos deparar com nossos próprios demônios como uma primeira etapa. Não somos bons como nos apresentamos. Temos inveja, ciúme, ansiamos a vida de alguém que achamos mais interessante que a nossa. Estamos longe de ser bonzinhos. E digo mais. A luta interna não é fifty-fifty. Muitas vezes somos tomados pelo mal que há em nós e, se sobra dez por cento de luz, que a usemos pra percorrer o vagão escuro da nossa alma e encontrar a porta de saída.
Fazer isso sozinho é muito difícil. Possivelmente precisaremos de ajuda. A análise entra aí como uma excelente escolha. Sim, porque é preciso escolher diariamente quem seremos para nos e para o mundo.
E falo como psicanalista mas antes como paciente. Como paciente volto a ser a criança do trauma, a filha abandonada na cena um. Como paciente revivo minha solidão no divã, choro, tenho crise de solidão (olha o sintoma se apresentando...). Como paciente digo ao meu analista que ele está errado, que ele não sabe o que sinto. E não sabe mesmo. Ele é um sujeito que supomos que sabe. Mas é só suposição.   Pois ele só pode trabalhar com minhas palavras. A análise é uma análise das palavras que digo e das que não consigo dizer. Somadas aos sentimentos que as carregam. E são sentimentos ruins em sua grande parte. Mas que precisam entrar em cena na medida do possível para cada um para que sejam ouvidos. Pelo analista e pelo próprio paciente. Mesmo que seja pelo silêncio.
E com esse percurso poderemos nos abrir ao amor na cena seguinte. Porque fazer análise é falar de amor. Do amor não recebido. Do recebido em excesso. Do não correspondido. Do amor que aprisiona. Do amor adoecido.
Ao lançar luz nesse amor escurecido, mofado, recalcado no inconsciente, há grandes chances de que ele ganhe oxigênio e volte a correr livremente pelos córregos do ser. Só ao ver quem se é de fato é que se pode promover alguma mudança no vir-a-ser, e o sintoma ser canalizado para o gozo, não aquele que nosso sintoma procura para se acomodar, mas o gozo de vida,  que nos liberta da morte de nós mesmos. Podemos escolher gozar debruçados na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza da vida ou na pobreza do espírito.  É uma questão de escolher se abrir ou se fechar. E no processo analítico as duas coisas ocorrerão. O comprometimento do paciente aliado ao bom manejo do analista procurarão os tons, intensidades e nuances de cada um, e tanto o abrir como o fechar se tornarão momentos e não definitivos.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Ira: dias de luta...cadê os dias de glória?

Verdade que ninguém é perfeito. Mais verdade ainda que a gente perde a paciência com pessoas, situações e coisas. Até com os pets tem hora que "o bicho pega" (minha gata de 16 anos resolveu fazer cocô e xixi em qq lugar da casa...aff).
Se acreditasse em inferno astral acho que poderia estar nele. Mas as pessoas é que estão cada vez mais idiotas mesmo.
A gente  chega no caixa de qualquer lugar, dá bom dia, boa noite, whatever e a criatura nem o-l-h-a na nossa cara. Meu cumprimento fez até eco. Cobrador de ônibus idem. Nunca dê dinheiro inteiro porque hj em dia você pode levar um tiro. Na farmácia é capaz de vc precisar de um remédio a mais pra curar o mal estar pela falta de educação do balconista. E por aí vai.
No meu caso não é culpa de ninguém.  Estes são só exemplos do que pode dar um start na minha ira. Porque ela faz parte do meu ser. "A ira constituinte do sujeito", vai ser o nome do meu livro de abordagem psicanalítica. Minha analista que o diga. Deve ter ido pro banheiro chorar depois da sessão de hj. Punk. Brabo. Uó.
Não é à toa que é um dos sete pecados capitais, porque estes são coisas que se apoderam do ser e  pra largar só muita disciplina e terapia, além de umá dose de exorcismo. Depois de 10 anos de análise confesso que melhorei do estado constante. Da frequência dos ímpetos tb. Mas eles estão ali. Prontos pra dar o ar da graça. Porque análise não apaga quem a gente é. Ela ensina a gente a domar os monstros e se tornar suportável pra gente mesmo. Quem convive sai no lucro.
O fato é que não está fácil pra ninguém. Hoje está especialmente insuportável. Ira rasgando o peito. Mas fiz o casamento perfeito pra um dia assim: análise e salão. Um bom café. O dia ajudou e não meteu o sol na minha cara.
E quem nunca ficou irado não atire a primeira pedra porque vai levar de volta a segunda e a terceira. O que consola é o lema do AA: "Só por hoje".
Enfim...dias de luta. Tô esperando os dias de glória.