sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Um pequeno retrato nosso

"Nunca um prefeito pensou tanto no coletivo sem fazer concessões. Marta, que também revolucionou o transporte coletivo em sua gestão, fazia concessões como a construção do túnel Rebouças, por exemplo. Haddad não. Fez aquilo que se faz em toda cidade grande de primeiro mundo, criou dificuldades para os carros e investiu nas bicicletas. Mas como convencer pessoas que foram criadas com a ideia de que carro simboliza o ápice do sucesso e que entram em prestações eternas para ter conforto e demonstrar algum tipo de ascensão social a andar de bicicleta? Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma bicicleta andando mais rápido do que um carro na Marginal Pinheiros. Em outros lugares do mundo, isso faria as pessoas largarem o carro. Aqui, muda-se de prefeito".

O texto completo está aqui. Peguei esse trecho pois acho que ele resume bem o artigo, disponível ai pra quem quiser ler.


Estava andando pelo facebook e me deparei com essa matéria falando sobre a provável derrota de Haddad nas urnas ano que vem. Porque realmente nós não estamos preparados para amar um governante que queira nos tirar o carro, nosso símbolo da conquista meritocrática, e nos ponha ciclovias para que andemos de bicicletas e despoluamos  as nossas grandes cidades em visual e ar. 
Afinal de contas, levamos tanto tempo para conseguirmos nossos carros, não é?
A questão carro ou bicicleta é uma amostra do que vai além. 
Nós não queremos que ninguém se meta nas nossas conquistas. Se for para favorecer algum desfavorecido, então...chama a polícia !! Não tenho culpa dessa vagabundagem que usa crack e precisa de um sistema de acolhimento por parte do Estado. Eduquei menus filhos e eles não são drogados. Não tenho nada com isso. Meus filhos não procuraram por isso. Dane-se o resto.
Morando no Rio de Janeiro, uma cidade de praia de cabo a rabo, eu acho muito legal as pessoas andarem de terno e gravata ou tailleur e meia calça num calor de 45 graus porque isso diz o quanto somos desenvolvidos. Trabalhar de bermuda é pra quem não tem estudo. Eu me esforcei muito. Estou no doutorado e não posso passar por desleixada. E nem os motoristas de ônibus. Nossos empregados têm que andar uniformizados, nossas babás de branco, pois nossas crianças são limpas, não têm necessidade de brincar na pracinha. Um tablet no sofá faz o mesmo efeito de diversão.
Nos, os trabalhadores que se esforçam pra pagar nossas contas não queremos saber dessa balela de cidadania. Isso é coisa pra pobre e preto que fica encostado no governo e ainda reclama. Querem o que, afinal? Que a gente os sustente? 
Somos consumidores. Temos tudo o que nossos cartões platinum podem comprar, mesmo que isso nos ponha em uma infinidade de prestações. E por sermos consumidores, todos os que nos prestam serviços são nossos empregados. Eu pago meus impostos. Quero pronto e quero agora. 
Empregada doméstica agora se acha gente. Quer direitos. Vê se pode? Já come e bebe na minha casa, usa meu Dove pra tomar banho. Quer mais o quê? Fundo de garantia é pra mim, que tenho uma profissão de verdade. Lavar privada dos outros é degradante. Só nos Estados Unidos que é legal. Meu filho inclusive lavou algumas pra arrumar um dinheirinho. Mas era dólar, né. Outra realidade. Ah, e na Alemanha ele vendia as pets no mercado pra ganhar uns trocos. Mas era em euro. Real não vale nada. País de merda.
É desse modo que a gente pensa. Uma pena, pois essa mentalidade vai nos deixar no "terceiro mundo" da ignorância e do preconceito por muitas gerações ainda. E continuaremos como bons colonizados achando que a grama dos Estados Unidos é a mais bonita, mesmo que seja uma das nações que mais produza loucos e assassinos no mundo. Todos devidamente trancafiados, claro.





Nenhum comentário: