quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O que faz um psicanalista?

Digo que ele começa fazendo mais. Pega na mão do paciente (metaforicamente) e vai com ele a seu destino mostrando as paisagens do percurso. O destino, antes incerto, escuro e assustador, tende a ir se modificando à medida que o analisando se compromete e se esforça em ver os detalhes das paisagens pelo caminho.

A viagem começa numa estação conhecida, mas que não era percebida em suas especificidades anteriormente. O analisando vê que uma parede enorme, por exemplo, na verdade tinha uma porta que ele não via, mas estava bem na sua frente todo aquele tempo. Mas quem vê são seus olhos, não os do analista. O que este faz é apenas sugerir que ele olhe novamente para aquele muro e diga o que vê. Às vezes são necessárias várias novas miradas para que as ranhuras, o desgaste do concreto e a porta inédita no imaginário sejam vistos.

Conforme o analisando vai enxergando as particularidades do percurso, ele vai soltando, sem perceber, a mão do analista. Já se move no ambiente sem precisar de tanta ajuda. Caminha um pouco e pergunta ao analista: "você ainda está aí?". E ouve: "Estou. Pode ir e voltar sozinho. Estarei esperando você explorar o interior do vagão para você voltar e me dizer o que viu".

Em algumas idas o analisando volta assustado. Ele não tinha percebido um espelho quebrado que deformou toda a sua imagem. Como estava um pouco escuro achou que era real. Instigado pelo analista a ver o detalhe, percebe que era apenas um espelho quebrado que distorcia sua visão de si mesmo. Mas aquela imagem permaneceu um pouco mais, precisando de algum manejo do analista.

O analisando percebe um interruptor que podia acender a luz e não entende porque sempre ficou ali no escuro. Toca no interruptor. A luz se acende. Ele olha em volta e vê brinquedos antigos, empoeirados, e lembra de si mesmo. Ele brincava naquele vagão parado na estação na infância. Não lembrava que havia deixado ali pequenos objetos e recordações. Vai remexendo em objetos e sensações. Sente raiva, compaixão, ódio, saudade. Por um momento quer sair correndo e grita pelo analista. "Estou aqui fora. Pode continuar".

Sozinho ali naquele vagão escuro, o analisando se abraça a um brinquedo e chora como a criança que voltou a ser naquele momento. Choro compulsivo, carregado de coisas pesadas e alívio no final. Remexe em mais algumas coisas. Vem em direção à saída. O interruptor trava e a luz não se apaga. Da porta ele vê o cenário inteiro pela "primeira" vez. Nem entende porque sentiu aquilo tudo. Acha por um momento que está louco. "Mas que mal há na sensação de se perder o controle de si mesmo por um instante?", pensa.

Reencontra o analista do lado de fora. Questiona um pouco magoado porque ele o deixou sozinho. "Eu estava aqui fora o tempo todo. Mas nada daquilo me pertencia. Não podia mexer. Só você".

O analisando se despede ainda muito mexido e chateado.

Anoitece. Ele sonha. Todas as sensações parecem desconexas, atropeladas. No sonho vê seus pais no vagão no Natal em que lhe dão o brinquedo ao qual se agarrou mais cedo. Acorda.

Resolve voltar sozinho à estação. Vê agora com clareza aquela porta no muro. "Devo ser louco por nunca ter visto essa porta". Entra no vagão. Vai ao interior. A luz quebrada permaneceu acesa, e dessa vez ele tropeça em menos objetos pelo caminho. Olha em volta. Fecha os olhos. Ouve claramente o "feliz natal" de seus pais e quase sente o cheiro dos doces à mesa. Outro choro incontrolável. Mas agora ele está só. Conseguiu voltar ao interior do vagão sem o analista. Sente vontade de gritar por ele, mas sabe que não tem mais ninguém ali. Só suas lembranças e o que restou de sua infância. O analista desta vez nada fez. Nem estava ali. Só o analisando consigo mesmo.

Um comentário:

Consuelo Martins disse...

Sua palavra sempre faz refletir. Rir, chorar, calar profundamente e mudar. Ou contestar. Mad traz vida. Escreve um livro? Vai ser de cabeceira à luz da luminária...