quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

2015: o ano que não terminou

Esse ano não está sendo um ano fácil pra ninguém. Estamos pisando em terras movediças política e economicamente falando. O país vivendo um colapso de governabilidade e credibilidade. E no mundo a insegurança, mesmo que motivada por questões diferentes das nossas, se generaliza: guerras, invasões, populações inteiras procurando abrigo onde a morte fique um pouco mais distante. O que pode ser ilusório, já que ninguém sabe quando vai morrer. Mas também ficar na mira de tanques de guerra é apressar algo que não se quer.
A instabilidade é tanta que está difícil se manter são. Parece que o "mens sana, corpore sano" nos abandonou faz tempo. Porque o corpo pode até estar melhor, a expectativa de vida ter aumentado...mas para quem? Para quê? Para chegarmos onde?
Não se acredita mais em heróis.  Estes estão cada vez mais humanizados e vulneráveis como todos nós.  Não temos mais uma utopia que nos dê um horizonte para crermos no futuro. O mundo realmente parece caminhar para um lugar escuro e incerto.
Como manter, então,  a sanidade diante disso tudo?
Creio que o que o apóstolo Paulo diz, ao finalizar o famoso texto da primeira carta ao povo da cidade de Corinto, aquele conhecido "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos...", com a frase "agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor", é algo onde devemos debruçar o nosso pensamento.
A fé. É literalmente acreditar no que não conseguimos enxergar e que parece irreal a olho nu. É estar aberto ao impossível.
A esperança. Alimenta e é alimentada pela fé em dias melhores. Ela é a válvula de segurança  das nossas emoções quando a realidade vil nos amedronta e desencoraja.
O amor. Paulo, uma das cem mentes mais brilhantes de todos os tempos, diz que este é o maior. Pois sem ele não conseguimos enxergar a nós nem ao outro. Sem o amor deixamos a areia movediça do medo nos levar, e não conseguimos ajudar a quem precisa de nós.  Sem o amor nos tornamos intolerantes com nossos erros e com os dos outros. Ficamos cegos de rancor. Surdos ao clamor do aflito e mudos para confortar o próximo.
O ano de 2015 me pareceu muito emblemático da falta destes três combustíveis da humanidade. Por isso a sensação de horror que nos invade, a falta de acreditarmos em quem quer que seja e a falta de vontade de lutar já que "está tudo assim mesmo".
Mas se perdemos a vontade de lutar por um mundo melhor, é porque nos falta amor. E caímos no contrassenso: queremos um mundo melhor para nossos filhos e netos, mas só plantamos cansaço,  intolerância e desamor. O que achamos que vamos colher? A semeadura é trabalhosa. Cansativa. Dura. Mas quando chega a colheita, a alegria retorna.
Vamos semear amor no terreno da vida. Mas não amor retórico.  Mas amor que se materializa. Que dá um prato de comida, que veste. Que pára para ouvir a dor, que se importa de fato. Pois "quem chora enquanto semeia, voltará com alegria e mãos cheias de frutos", como nos diz Davi no livro dos Salmos.
Semear é se dar pelo outro. E isso só conseguimos com amor, quem não vem de nós, mas de Deus, que tudo fez.
Antes de terminar o ano de 2015, vamos refletir e agir.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Nem toda tristeza é depressão.

Mas toda depressão é um estado de tristeza desmedida, acompanhada de uma falta de
desejo para a vida.
Um acontecimento dramático pode desencadear uma tristeza e não propriamente uma depressão. Essa pode acontecer sem nenhum "gatilho" aparente ou com ele, como a morte de alguém , uma separação, ou até mesmo uma grande mudança.
O fato é que o limite é tênue e se tem classificado a tristeza, que é parte estruturante da vida, como um mal. Numa sociedade hedonista como a nossa, onde o prazer e a felicidade não têm antônimos, o efeito tem sido exatamente o contrário: a busca desmedida pela plena felicidade está enlouquecendo as pessoas, e a não realização dessa "meta" em todos os níveis da vida tem nos adoecido.
O fato é que se há alegria na vida, também há a tristeza. Esta é fundamental para que a gente desenvolva qualidades como resiliência, empatia e senso de realidade.
A vida está, de fato, muito difícil. A corrida pelo dinheiro tem nos levado a estados de esgotamento que podem desencadear em qualquer pessoa a ausência vontade total de sair da cama e fazer suas atividades diárias. Quando essa indisposição para desejar a vida vira um estado constante, aí sim podemos ventilar a possibilidade de uma depressão. Mas a tristeza, por mais forte que seja, como num luto, por exemplo, pode passar e nos deixar mais fortes. A depressão não. Ela mina nossas energias e vontade de viver continuamente, mesmo que não tenhamos pensamentos suicidas. É uma dor insuportável que vem acompanhada de tristeza (sim) profunda e limitante das atividades mais rotineiras.
Ou seja, a tristeza existe e vamos ser acometidos por ela se estamos vivos. Os poetas sempre falaram dela lindamente. Inspirou textos belíssimos,  pinturas deslumbrantes, histórias inesquecíveis. Tristeza e depressão são muito parecidas e têm confundido os melhores e mais bem intencionados profissionais que cuidam da alma, como psiquiatras e terapeutas das mais variadas abordagens. O discurso da depressão inundou a vida e, infelizmente, com intuito mercadológico, para entorpecermos com fármacos nossa tristeza estruturante, transformando-a em patológica indiscriminadamente. Se ouvíssemos mais os sinais que a tristeza que faz parte da vida nos dá e que temos ignorado, muitos de nós não estariam de fato tão deprimidos.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bonner e Maju em Paris: um caso de racismo travestido de qualificação

Passeando pelo facebook vejo a chamada da página do Pragmatismo Político sobre o fato de William Bonner ter designado a moça do tempo, a conhecida jornalista (sabiam que ela era???) Maju, para cobrir a conferência COP-21, Conferência do Clima a ser sediada em Paris . Aqui da pra ver a reportagem e saber detalhes.
O que me chamou atenção foi o número de comentários ácidos e discriminatórios direcionados à "negra que não sabe o que está fazendo ali, provavelmente veio do setor de faxina e serviços gerais e caiu ali de paraquedas".
Bom, em primeiro lugar, penso que ela não estaria no horário nobre da emissora, com a qual aliás, não simpatizo, se fosse uma mulher burra. Pois ela já tem um imenso obstáculo: ser negra num país racista. O argumento da vez é a falta de qualificação. Mas de que qualificação se está falando? Se ela está dando a cara pra bater e está sendo aprovada não é que se siga a ordem da indústria e ganhe oportunidades? Ahhh, esqueci que essas só podem ser dadas oportunidades ao brancos, ops, a quem merece. Por isso se chama meritobrancocracia.
Depois de ler tanta asneira comentei que qualificação é algo subjetivo, pois diploma não é igual a qualificação. "Ah, mas ela não é especialista em sustentabilidade!", falou algum especialista de plantão. E aí terminei meu comentário: " porque o primeiro pensamento das pessoas é: a mucama foi pra cama com o patrão". Lógico!!! Afinal, como uma negra linda ia conseguir uma viagem a Paris se não estivesse na cama do editor chefe Bonner???? Fátima, preciso ter um Encontro com vc, urgente, pra te contar um babado!!!!
Conta pra mim aqui, vc que viu a reportagem. Não foi a primeira coisa que vc pensou? E digo: pensei tb, no meu caso só não foi o primeiro pensamento, mas foi e me dei um tapa na cara pra acordar do racismo automático nosso de cada dia.
Por que ela não pode ir a Paris? Por que ela não fala bem? Não sabe nada sobre clima? Tem uma aparência que choque alguém? Se ela tivesse alguma dessas características não estaria na maior emissora do país (que é um lixo, assunto pra outro post) no horário mais caro.
Não a conheço. Puxei uma Wikipédia e vi que tem formação em jornalismo e passou pela TV Cultura de SP, entre outras atividades na área. Mas fico impressionada como as pessoas saem digitando asneiras racistas sem sequer...sem sequer nada! Não se deve denegrir NINGUÉM por cor ou posição social, ou cultura. Posso ser phD em Matemática e ser uma idiota política. Posso ser uma especialista em genética e ser um zero à esquerda em Sociologia. E provavelmente serei. Porque ninguém sabe tudo. De cultura africana, então...somos os negros mais ignorantes de nossa a ancestralidade que eu conheço. Como assim? Negros? Simmmmm. Negros. Pretos. Coloridos. Vou aliviar pra vcs: mestiços com os pés e as mãos na África.
Sorry se vc se achava brasileiro e branco. Num país como o nosso isso é geneticamente impossível. E olha que sou uma idiota em genética.
Não gostou???
Mingula.
Fui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Depois que me tornei psicanalista

Sou uma jovem psicanalista. Não na idade, mas na clínica. Passei por alguns anos de estudo e quase uma década de análise pessoal, coisas que nunca mais deixaram de me acompanhar, antes de me autorizar a este ofício. (Lacan diz que o analista autoriza-se por si mesmo, algo que gera uma boa polêmica).
O fato é que ter me tornado psicanalista tem me trazido poucos benefícios segundo o pensamento da nossa sociedade. 
Não me tem trazido dinheiro. Pois quase dois anos na área tem sido praticamente só de investimento: análise,  supervisão, grupos de estudo e muitos livros. Ainda resolvi de cara abrir meu próprio consultório e não sublocar de outro profissional  como é a prática comum.  Acho que pela minha quase meia idade eu me sentiria desconfortável em estar num ambiente que não tivesse algo de mim. E como todo começo,  poucos pacientes ainda. Ou seja, escolhi a profissão errada para ter sucesso financeiro. 
No quesito amigos não foi muito animador. Sempre fui uma amiga ouvinte, mas também falante. Mas saber que me tornei psicanalista deixou uns atirados, querendo conselhos e receitas (coisa que não é da ordem desse ofício) e tenho que lembrar que também como, durmo e sofro de estresse (sou psicanalista, não monge do Nepal). Outros eu perdi. Simples e dolorido assim. Amigos queridos que vivem relacionamentos truncados não me quiseram mais em suas vidas. Um afastamento silencioso mas terrivelmente doloroso. Foram. Sem me avisar. Me tornei coleguinha sem ser avisada depois de duas décadas.
Pelo lado familiar uns acham cool, outros estranho (mas já me achavam estranha, então não mudou nada), filhos adolescentes acham maneiro pra dizer pros amigos e parceiro se acha na berlinda do divã em qualquer assunto mais sério. Se for discutir a relação, vem inevitavelmente a pergunta: "você está me analisando?". Sim, porque se vamos discutir nossa vida ela precisa ser analisada. Não, porque não estou psicanalisando nosso amor. Não sou nossa terapeuta.
Os benefícios de ter me tornado o que me tornei está tão nas entrelinhas que tem que ser sagaz pra perceber. Não é uma alegria de torcida: "Eeeeee,  sempre sonhamos em ter um psicanalista na família!!!".  Isso a gente vê com quem escolhe ser médico, advogado...atleta. Mas psicanalista não.
Pra bancar essa escolha numa sociedade como a nossa é preciso saber se sentir feliz sozinho com a escolha que se fez. Quase como um cientista de óculos fundo de garrafa que manuseia tubos de ensaio contendo coisas microscópicas. Quem não vive essa vida não sabe o que é ser feliz a cada pequeníssima mas fundamental descoberta.
E acho que vai por aí. Numa sociedade cada vez mais veloz e enlatada escolhi na meia idade uma profissão que lida com o ser humano naquilo que é lento, que ele repete e na maioria das vezes deteriora suas relações pela falta de novidade. E pra piorar tentamos recriar as cenas mais traumáticas de sua vida, o que vai fazê-lo sofrer. Quem vai querer passar por isso? É quem vai ser o louco de andar a 10km por hora quando tudo está na velocidade da luz? Poucos, cada vez menos. Por outro lado, esse excesso de velocidade está enlouquecendo as pessoas. Mas elas querem os entorpecentes de ação imediata, e isso a Psicanálise não faz e não é.
Por isso digo que escolhi a profissão para a qual fui vocacionada. Pois nunca me senti confortável no mundo da aparência e do excesso, e sempre li entrelinhas. Sempre pensei demais nos sonhos. Sempre fui uma observadora e uma analista amadora das palavras que saem da boca das pessoas. Os muitos anos de análise me levaram a concluir que eu tinha e fazia coisas de um psicanalista mas sem seus instrumentos. Isso me levou ao estudo intenso, ao mergulho no mundo Freudiano e do discurso lacaniano (confesso que sou mais quadradinha igual a Freud e por isso às vezes acho Lacan muito chato). 
E aqui estou. Psicanalista. Com menos amigos e família me olhando com ar de "mas ela era tão inteligente pra gostar dessas maluquices...". Mas aí percebo que esse quadro não se apresenta assim por causa da minha escolha. Mas porque a humanidade está assim: cada vez menos amigos, famílias com expectativas que não se concretizaram e dinheiro? Bom, não faço parte das 8 famílias que detém toda "la plata" do globo terrestre, então vou feliz pro consultório sabendo que ali vou realizar grande parte do que sou. 
Bem vinda ao mundo da Psicanálise pra mim!!!
  

domingo, 15 de novembro de 2015

Oremos pelo mundo

Oremos
Pelo mundo que convulsiona
Pela natureza que de tão enojada
Vomita seus habitantes em terremotos, tsunamis e furacões 
Oremos pelo mundo que não suporta mais tanta extração, extorsão das almas que tentam se refugiar em vão em terras distantes
Pois latitude e preconceito estabelecem as fronteiras
Oremos pelas crianças, dizimadas na violência dentro seus lares, onde o abandono é amparado pelo que se diz Estado protetor, mas que nada faz a não ser encher os abrigos de meninos e meninas que depois passarão às prisões, tendo nascido e morrido sem ver o sol da justiça.
Oremos por essas meninas tornadas mulheres tão cedo por uma sociedade que as vê como objeto obsceno pelos olhares dos estupradores reais e virtuais.
Oremos por elas.
Oremos pelos meninos sem futuro, que muitas vezes não querem estudar porque aprendem pela tv que virarão estrelas do futebol, fantasia megalomaníaca em uma realidade rarefeita.
Oremos pelo mundo.
Oremos pelas mulheres, de quem os direitos, que mal estavam assegurados, vão sendo subtraídos como um útero infecundo.
Oremos pela humanidade que, quanto mais desenvolvida em bens, mais estúpida se torna, incapaz de amar o de perto e o de longe.
Oremos.
Muitas vezes nosso grito não é ouvido. Outras ele é silenciado. Por isso nossas gargantas doem, sedentas de alívio.
Então oremos.
Oremos. Oração é luta em forma de súplica.
Oremos porque o mundo está morrendo e arrastando para o fim do amor todo ser vivente.
Oremos para que esse fim não nos tire a vontade de continuar lutando.
Somos Mariana
Somos Amarildo
Somos Malala
Somos Madeleine
Somos Francisco
Somos Cláudia
Somos Bernardo
Somos Eduardo
Somos Jean Charles
Somos Carolina
Somos João Vitor
Somos Tim Lopes
Somos Yuca
Somos Stuart

Somos as crianças esquecidas, cegas e surdas
Somos os filhos da praça de Mayo
Somos os judeus exterminados
Somos os africanos escravizados
Somos Alemão
Somos Maré
Somos Osasco
Somos Rocinha
Somos Rio Doce
Somos Amazônia
Somos Egito
Somos Nigéria
Somos Berlim
Somos Grécia
Somos França
Somos os jovens desempregados da Espanha
Somos os refugiados da Síria
Somos Israel sitiada
Somos os mortos do World Trade Center
Somos os nordestinos na seca
Somos os mineiros afogados na lama
Oremos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Uma carta aos meus filhos

Quero dizer a vocês que a vida de adulto é muito chata. Pesada. Tão cheia de obrigações que se a gente não cuidar todos os dias a gente não encontra espaço pra fazar o que se gosta. Deveria ser ao contrário.
Mas é por isso mesmo que resolvi escrever umas linhas pra que vocês se lembrem de algumas coisas que são tão importantes e quem é tão jovem nem sabe porque às vezes nunca lhe foram ditas.
Vocês serão exigidos muito cedo a decidir o que serão para o resto da vida. Se já souberem, que bom. Se não, não se sintam diminuídos porque todo mundo diz que vocês estão perdendo tempo. É melhor gastar alguns poucos anos no início da vida para descobrir quem a gente é do que adoecer aos 30 sem saber pra onde ir. Porque profissão é amor em primeiro lugar. Não dinheiro. E ponto. Quer ser aviador? Seja. Quer fugir com o circo? Seja feliz.
É isso que eu desejo pra vocês. Felicidade. Mas não é a de comercial,  a efêmera. Felicidade vazia é tudo menos felicidade. Ela é algo que se constrói de dentro pra fora e não é a vida material que determina. É o nosso espírito.
Não se sintam obrigados a ser o que não querem porque a sociedade diz que tem que ser assim. Construam-se como sujeitos das suas vidas. Tomem as rédeas. Delegar a outros a nossa vida e o que podemos fazer de pior por nós mesmos.
Sejam fortes e corajosos. O mundo aí fora tem andado vil. Intolerante com tudo e todos. Agarrem suas idéias com unhas e dentes. Mas não se envergonhem de mudar de opinião. Só não muda quem está morto.
Amem profundamente. Porque só o amor faz suportar o sofrimento. O amor por Deus, por si e pelo próximo. Não se esquivem de ajudar quem precisa. Mas ajudem e deixem seguir. A vida do outro é de sua própria escolha. Se vocês ajudarem e ninguém voltar para agradecer, tenham certeza que vocês fizeram a sua parte. Ajudar e controlar não é ajuda.
Sejam abertos a novas experiências. Experimentem. Conheçam pessoas com idéias totalmente diferentes das de vocês. Saiam da zona de conforto e dialoguem com quem discorda das suas idéias e crenças. É de uma riqueza que dinheiro nenhum paga.
Respeitem os seus parceiros de amor. Sejam gentis. Estejam junto do ser amado na hora da adversidade. Dividam as preocupações. Não deixem o outro se sentir sozinho num momento ruim. Quando a tempestade vem, a gente resiste melhor abraçado ao outro, porque, se o vendaval nos levar para algo desconhecido, pelo menos vocês estarão juntos e poderão recomeçar.
Amor é algo difícil de manter. Casamento, nem se fala. Mas é uma experiência de troca das mais ricas que existem. Nele aprendemos a amar quando tudo diz não. Por isso, se vocês se casarem, não entrem já deixando a mochila arrumada na porta de saída.  Entreguem-se. Vivam a vida a dois entendendo que as pessoas não são descartáveis. O amor tem seguido a lógica do mercado: vou na prateleira, uso, deu um defeito, eu jogo fora. Isso a gente faz com celular. Pessoas são mais complexas e sempre merecem uma segunda chance.
Amem seus filhos. Mas criem pessoas livres. Deixem-os ir. E isso é o mais difícil. Mas é igualmente prazeroso quando nos tornamos um porto seguro para os filhos, onde eles podem atracar e partir, e voltar, e partir de novo.
Sejam luz para os que encontrarem. Produzam memórias que valham a pena ser lembradas. A velhice é povoada delas e será mais leve se vocês tiverem a paz de saber que vocês foram vocês mesmos e produziram bons frutos. Sejam esses frutos o afeto, a gratidão e a sabedoria.
Vocês têm tanta vida ainda. Não desperdicem com rancor e inveja. Construam seus próprios tesouros.
Sejam para os outros as pessoas que vocês sonham em ter ao seu lado. Perdoem sempre. Mas não destruam sua autoestima por ninguém. Porque isso deixará vocês incapazes de amar. E isso é estar morto mesmo em vida.
Ao final das contas tudo se resume ao amor. Porque o que aprendi desejo a vocês:
"Ama a teu Deus com toda a tua força e o teu entendimento (porque ter fé não é ser burro) e ama teu próximo como a ti mesmo". Ou seja, amem a si mesmos e ao outro com a mesma intensidade.
   

domingo, 25 de outubro de 2015

A menina que rabiscava livros

Muito introvertida. Silenciosa. Tanto que quem a conheceu depois custa a acreditar. Mas a verdade é que ela não queria viver nesse mundo. Só no da sua imaginação. Que era nevoada e cinza.
Ela amava livros. Mas não os tinha. Sua vontade era ler todos os que encontrasse. Mas a sua busca continuou por muito tempo ainda.
A biblioteca pública da cidade do interior era o que bastava para trazer algum sorriso àqueles lábios que pouco se mexiam. Não queria gastar palavras, pois era a única coisa que tinha dentro de si. Não havia bonecas, roupas, mimos. Palavras eram o seu bem mais precioso. Por isso ela as guardava para si.
As tardes na biblioteca eram libertadoras. Ia desde dicionários a livros de História e romances. Não possuía preconceito intelectual. Seus olhos devoravam textos como bebês famintos, e o que conseguia digerir passava para o caderno a lápis. As outras pessoas a olhavam escrever porque era canhota e possuía aquele maneirismo estranho dos canhotos para pegar no lápis e correr a mão sinistra pelo caderno. Sinistros eram chamados os canhotos na Idade Média, ela aprendeu num dicionário velho e cheio de manchas amarelas. Um dia ganhou um dicionário de espanhol com essa marca de tão velho, mas isso a deixava mais apaixonada por ter uma relíquia. "Relíquias são coisas únicas e preciosas", também aprendeu no pedaço de infância gasto naquela biblioteca e fez sua interpretação livre e inocente.
Os tão sonhados livros só chegaram depois dos 20 anos. Era muito tempo de palavras guardadas pra que eles ficassem intactos. A cada página lida, comentários rabiscados pelos lados, escritos tortos e muitas vezes com nenhuma conexão com o texto impresso. Era só pegar o lápis que as palavras brotavam. Incontroláveis. Donas de si. Estavam decididas e ser escritas.
E assim foi com todo livro que lhe chegou à mão.  Ela sentia que ele só era verdadeiramente sorvido se fosse impregnado de rabiscos, desenhos de estrelas e assinaturas do próprio nome.
Quase mais 20 anos se passaram e seu pai faleceu. Ele, que não havia lhe dado na infância  o que ela mais queria, que era o seu amor, lhe deixou apenas uma lapiseira, que ele usava nas nontem afora em que se debruçava na prancheta para fazeu croquis  e projetos.  Aquela lapiseira foi companheira de uma vida e sempre esteve viva nas poucas memórias da meninas que rabiscava livros.
Depois de quase dez anos de sua morte, ela pode perceber que aquele foi o maior ato de amor de seu pai. Porque ela não sabia, mas era ela a sua escritora-menina. E ele a achou digna de uma lapiseira a qual, para a silenciosa criança dos olhos tristes, nenhum diamante se compara. Pois cada vez que ela, quase na meia idade, pega o fino artefato para rabiscar seus livros e fazer conexões com o infinito, também se conecta com ele e ouve um "eu sempre te amei, filha."



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A psicanálise é elitista?

Uma das coisas que ouço com alguma frequência é de que o tratamento psicanalítico é para quem tem alto poder aquisitivo. Normalmente os menos favorecidos têm acesso pela via de clínicas - escolas situadas em universidades, mas em consultório particular é mais difícil.  O acesso realmente fica mais restrito por causa do valor.
A Psicanálise de base freudiana e lacaniana, essas duas vertentes com as quais tenho vivência, tem historicamente uma postura mais distanciada do social. O tratamento visando àquele sujeito único, o que está correto de acordo com a prática psicanalitica, parece que, de tanto individualizar esse sujeito, acaba por retirá-lo do contexto social em que vive. A Psicanálise não tem se ocupado tanto quanto deveria, penso eu, do contexto de vida do paciente que vai para além do familiar ou dos laços mais próximos.
Não estou aqui pregando um contrassenso; a escuta analítica é, de fato, do sujeito, do que este sujeito carrega em si, de como o real do corpo simboliza a vida com o suporte do imaginário.  E isso realmente se dá no famoso "um a um" lacaniano.
Freud fala no seu texto "Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise", porque em sua época a classe médica era por excelência o grupo do qual ele fazia parte que praticava a escuta analítica, fala muito claramente sobre a impossibilidade de uma análise gratuita por alguns motivos: pelo fato de a relação com o dinheiro ter um cunho altamente investido de sexualidade e pelo valor do trabalho do analista. Colocações coerentes, a meu ver (se colocar no google esse título é facílimo de achar).
A partir de Lacan parece que a questão do dinheiro ficou mais forte. Ele era um psiquiatra e psicanalista que valorizava seu trabalho e que gostava de dinheiro (seria um sintoma?). Vendo documentários sobre ele com pessoas que tinham sido seus pacientes, vários destacaram essa caracteristica: por vezes ele pegou a carteira da mão do paciente ao ser perguntado quanto tinha sido a sessão, retirava todo o dinheiro e dizia que "por hoje isso está bom". Confesso que isso me chocou um pouco na hora. Culpa da minha formação de origem como assistente social. E vejo que essa prática de "me dê tudo o que tem porque meu trabalho vale" tem sido levada às últimas consequências. E aí vem a resposta do titulo: nesse sentido a Psicanálise tem se mostrado de um modo geral elitista sim. E ouso em dizer: elitista e arrogante.
Longe de querer desvalorizar o trabalho árduo de um analista. É um trabalho minucioso, interpretativo das entrelinhas, desgastante mentalmente. E por isso tem sim seu valor. E aqui acho que o princípio do "um a um" pode ser aplicado com a visão socio-econômica do paciente sim, no sentido de não querer lhe arrancar a pele porque ele já irá se despir dolorosamente dela durante o processo terapêutico. Nem todos podem se dar o luxo de estar num divã, ele próprio um dos símbolos da "altivez" psicanalítica, a partir do qual se criou uma mística por ser ele um importante artefato do processo analítico quando originalmente Freud o instituiu porque ele tratava pacientes por 12 a 14 horas por dia e não queria que suas expressões faciais pudessem interferir na fala do paciente. Claro que o divã não é só isso. Ele é parte de um processo terapêutico e não é oferecido ao paciente até que a relação de transferência com o analista esteja estabelecida e se tenha saído da fase inicial do tratamento. Mas penso que democratizar o acesso é uma arma valiosa para difundir a Psicanálise. Mas será que se quer isso ou a vontade de ganhar muito dinheiro de um único paciente é mais importante? Será esse um sintoma da própria prática dos analistas? 
Escuto muito que "Psicanálise não é para todos". E não é mesmo. Pois ela é um mergulho tão profundo no ser que muitos não conseguem suportar. Só que essa frase tem sido interpretada somente pela via econômica. Será mesmo que essa deve ser a única interpretação?  Se é, esta em desacordo com a própria teoria psicanalítica,  principalmente lacaniana, onde a cadeia significante passa como num letreiro luminoso (esse termo está nos Escritos de Lacan) onde os sentidos são tudo menos um só. 
Esse texto não é uma crítica a nenhum colega. É apenas um convite à reflexão do que queremos tornar a Psicanálise num mundo onde o dinheiro é o sintoma social. Quem tem, ótimo. Quem não tem, sinto muito. 


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A análise como uma escolha.

Muitas vezes não conseguimos controlar o mal que nos habita. A raiva tem seu ápice, outras vezes a tristeza. Fazem parte de nós, porque somos seres sombrios muitas vezes.
O que pode ser fecundo quando se consegue comunicar que não se está bem, assim como fazer uma breve retirada do espírito de cena, no sentido de procurar se acalmar e ouvir o que o interior tem a dizer. Tem horas que ele é duro. Pois podemos estar insuportáveis pra aqueles que nos amam. É necessário respeitar também o outro e segurar a nossa insatisfação. Porque no fundo ela é com a gente mesmo. Por não saber lidar com a vida que escolhemos e por não ter conseguido realizar certas coisas, por não nos sentirmos queridos, desejados. Então cabe trabalhar pra que seja canalizado para o caminho da sublimação. Para o nosso próprio bem.
Pois os dias tem sido negros. O mundo e nossa própria vizinhança recheados de notícias ruins, desgraças,  mortes, injustiça. Não é fácil se manter bem com essa vibe gigantesca. Aguentar a si mesmo  já é difícil, que dirá aguentar esse mundo.
Mas o trabalho é árduo e individual. Como diz Lacan, no um a um. Ninguém pode nos mudar e não podemos mudar as pessoas. Só podemos promover mudanças em nós mesmos, e isso à custa de muito esforço emocional. E cansa. Exaure. Mas profundamente transformador. Pois não podemos exigir um mundo melhor, que é um discurso legítimo, se não nos esforçarmos para que o nosso bem chegue ao outro pela empatia, amizade, compaixão, amor. "Ama a teu próximo como a ti mesmo" resume bem isso.  Mas até chegarmos nesse amor isso envolve nos deparar com nossos próprios demônios como uma primeira etapa. Não somos bons como nos apresentamos. Temos inveja, ciúme, ansiamos a vida de alguém que achamos mais interessante que a nossa. Estamos longe de ser bonzinhos. E digo mais. A luta interna não é fifty-fifty. Muitas vezes somos tomados pelo mal que há em nós e, se sobra dez por cento de luz, que a usemos pra percorrer o vagão escuro da nossa alma e encontrar a porta de saída.
Fazer isso sozinho é muito difícil. Possivelmente precisaremos de ajuda. A análise entra aí como uma excelente escolha. Sim, porque é preciso escolher diariamente quem seremos para nos e para o mundo.
E falo como psicanalista mas antes como paciente. Como paciente volto a ser a criança do trauma, a filha abandonada na cena um. Como paciente revivo minha solidão no divã, choro, tenho crise de solidão (olha o sintoma se apresentando...). Como paciente digo ao meu analista que ele está errado, que ele não sabe o que sinto. E não sabe mesmo. Ele é um sujeito que supomos que sabe. Mas é só suposição.   Pois ele só pode trabalhar com minhas palavras. A análise é uma análise das palavras que digo e das que não consigo dizer. Somadas aos sentimentos que as carregam. E são sentimentos ruins em sua grande parte. Mas que precisam entrar em cena na medida do possível para cada um para que sejam ouvidos. Pelo analista e pelo próprio paciente. Mesmo que seja pelo silêncio.
E com esse percurso poderemos nos abrir ao amor na cena seguinte. Porque fazer análise é falar de amor. Do amor não recebido. Do recebido em excesso. Do não correspondido. Do amor que aprisiona. Do amor adoecido.
Ao lançar luz nesse amor escurecido, mofado, recalcado no inconsciente, há grandes chances de que ele ganhe oxigênio e volte a correr livremente pelos córregos do ser. Só ao ver quem se é de fato é que se pode promover alguma mudança no vir-a-ser, e o sintoma ser canalizado para o gozo, não aquele que nosso sintoma procura para se acomodar, mas o gozo de vida,  que nos liberta da morte de nós mesmos. Podemos escolher gozar debruçados na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza da vida ou na pobreza do espírito.  É uma questão de escolher se abrir ou se fechar. E no processo analítico as duas coisas ocorrerão. O comprometimento do paciente aliado ao bom manejo do analista procurarão os tons, intensidades e nuances de cada um, e tanto o abrir como o fechar se tornarão momentos e não definitivos.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Ira: dias de luta...cadê os dias de glória?

Verdade que ninguém é perfeito. Mais verdade ainda que a gente perde a paciência com pessoas, situações e coisas. Até com os pets tem hora que "o bicho pega" (minha gata de 16 anos resolveu fazer cocô e xixi em qq lugar da casa...aff).
Se acreditasse em inferno astral acho que poderia estar nele. Mas as pessoas é que estão cada vez mais idiotas mesmo.
A gente  chega no caixa de qualquer lugar, dá bom dia, boa noite, whatever e a criatura nem o-l-h-a na nossa cara. Meu cumprimento fez até eco. Cobrador de ônibus idem. Nunca dê dinheiro inteiro porque hj em dia você pode levar um tiro. Na farmácia é capaz de vc precisar de um remédio a mais pra curar o mal estar pela falta de educação do balconista. E por aí vai.
No meu caso não é culpa de ninguém.  Estes são só exemplos do que pode dar um start na minha ira. Porque ela faz parte do meu ser. "A ira constituinte do sujeito", vai ser o nome do meu livro de abordagem psicanalítica. Minha analista que o diga. Deve ter ido pro banheiro chorar depois da sessão de hj. Punk. Brabo. Uó.
Não é à toa que é um dos sete pecados capitais, porque estes são coisas que se apoderam do ser e  pra largar só muita disciplina e terapia, além de umá dose de exorcismo. Depois de 10 anos de análise confesso que melhorei do estado constante. Da frequência dos ímpetos tb. Mas eles estão ali. Prontos pra dar o ar da graça. Porque análise não apaga quem a gente é. Ela ensina a gente a domar os monstros e se tornar suportável pra gente mesmo. Quem convive sai no lucro.
O fato é que não está fácil pra ninguém. Hoje está especialmente insuportável. Ira rasgando o peito. Mas fiz o casamento perfeito pra um dia assim: análise e salão. Um bom café. O dia ajudou e não meteu o sol na minha cara.
E quem nunca ficou irado não atire a primeira pedra porque vai levar de volta a segunda e a terceira. O que consola é o lema do AA: "Só por hoje".
Enfim...dias de luta. Tô esperando os dias de glória.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Um pequeno retrato nosso

"Nunca um prefeito pensou tanto no coletivo sem fazer concessões. Marta, que também revolucionou o transporte coletivo em sua gestão, fazia concessões como a construção do túnel Rebouças, por exemplo. Haddad não. Fez aquilo que se faz em toda cidade grande de primeiro mundo, criou dificuldades para os carros e investiu nas bicicletas. Mas como convencer pessoas que foram criadas com a ideia de que carro simboliza o ápice do sucesso e que entram em prestações eternas para ter conforto e demonstrar algum tipo de ascensão social a andar de bicicleta? Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma bicicleta andando mais rápido do que um carro na Marginal Pinheiros. Em outros lugares do mundo, isso faria as pessoas largarem o carro. Aqui, muda-se de prefeito".

O texto completo está aqui. Peguei esse trecho pois acho que ele resume bem o artigo, disponível ai pra quem quiser ler.


Estava andando pelo facebook e me deparei com essa matéria falando sobre a provável derrota de Haddad nas urnas ano que vem. Porque realmente nós não estamos preparados para amar um governante que queira nos tirar o carro, nosso símbolo da conquista meritocrática, e nos ponha ciclovias para que andemos de bicicletas e despoluamos  as nossas grandes cidades em visual e ar. 
Afinal de contas, levamos tanto tempo para conseguirmos nossos carros, não é?
A questão carro ou bicicleta é uma amostra do que vai além. 
Nós não queremos que ninguém se meta nas nossas conquistas. Se for para favorecer algum desfavorecido, então...chama a polícia !! Não tenho culpa dessa vagabundagem que usa crack e precisa de um sistema de acolhimento por parte do Estado. Eduquei menus filhos e eles não são drogados. Não tenho nada com isso. Meus filhos não procuraram por isso. Dane-se o resto.
Morando no Rio de Janeiro, uma cidade de praia de cabo a rabo, eu acho muito legal as pessoas andarem de terno e gravata ou tailleur e meia calça num calor de 45 graus porque isso diz o quanto somos desenvolvidos. Trabalhar de bermuda é pra quem não tem estudo. Eu me esforcei muito. Estou no doutorado e não posso passar por desleixada. E nem os motoristas de ônibus. Nossos empregados têm que andar uniformizados, nossas babás de branco, pois nossas crianças são limpas, não têm necessidade de brincar na pracinha. Um tablet no sofá faz o mesmo efeito de diversão.
Nos, os trabalhadores que se esforçam pra pagar nossas contas não queremos saber dessa balela de cidadania. Isso é coisa pra pobre e preto que fica encostado no governo e ainda reclama. Querem o que, afinal? Que a gente os sustente? 
Somos consumidores. Temos tudo o que nossos cartões platinum podem comprar, mesmo que isso nos ponha em uma infinidade de prestações. E por sermos consumidores, todos os que nos prestam serviços são nossos empregados. Eu pago meus impostos. Quero pronto e quero agora. 
Empregada doméstica agora se acha gente. Quer direitos. Vê se pode? Já come e bebe na minha casa, usa meu Dove pra tomar banho. Quer mais o quê? Fundo de garantia é pra mim, que tenho uma profissão de verdade. Lavar privada dos outros é degradante. Só nos Estados Unidos que é legal. Meu filho inclusive lavou algumas pra arrumar um dinheirinho. Mas era dólar, né. Outra realidade. Ah, e na Alemanha ele vendia as pets no mercado pra ganhar uns trocos. Mas era em euro. Real não vale nada. País de merda.
É desse modo que a gente pensa. Uma pena, pois essa mentalidade vai nos deixar no "terceiro mundo" da ignorância e do preconceito por muitas gerações ainda. E continuaremos como bons colonizados achando que a grama dos Estados Unidos é a mais bonita, mesmo que seja uma das nações que mais produza loucos e assassinos no mundo. Todos devidamente trancafiados, claro.





segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Voltando ao normal...será?

Depois de um dos quinze dias mais acelerados dos últimos anos parece que finalmente meu segundo semestre começa.

Reformei minha velha casa (só por dentro ainda) e me mudei há pouco mais de duas semanas. Abri meu próprio consultório. Mas antes de tudo se concretizar eu esperei. Esperei. Esperei muito. E esperar pra ansioso é o mesmo que passar fome pra quem tá de dieta. Um sacrifício. Infernal.

Esperei intensamente a volta do meu filho que foi fazer intercâmbio na Alemanha em fevereiro de 2014. Ele já é adulto. Tem 23 anos. Meu primogênito. Mas sou uma mãe que engole a cria. Lacan  que me ature.

Mãe sempre quer filho pro perto. Não sou diferente de ninguém. Tô falando das mães de verdade, não de quem tem filho e terceiriza por vontade própria tudo o que diz respeito à criança. Sei que tem muitas que precisam terceirizar. A estas minha homenagem, pois são heroínas em dupla jornada de vida.

Bom, mas tava falando da espera. Esperei muito por esse menino. Na minha cabeça ele não chegava nunca. Mas ele chegou. E com ele a alegria de rever um filho. Fiquei pensando hoje nas mães que abraçavam seus filhos que voltavam da guerra. Num tempo onde não se tinha comunicação e se ficava sem saber se a pessoa estava viva. Deus me deixou nascer na época certa. Acho que eu morreria.

Alegria imensa. Casa cheia. De amigos. Das avós. Tios. Três dias de festa (que para meu marido é sinônimo de churrasco). O pai também fez aniversário nesse meio tempo e confesso que não consegui pensar muito nisso pela primeira vez. Eu estava tomada pela alegria de ver meu menino de novo.

Sei que me acham exagerada com essa coisa de filho. Sou mais transparente do que gostaria. Nem os 10 anos de análise me ensinaram a arte da camuflagem. Mas aprendi a ser um pouco menos agressiva com o mundo. Acho que a tribo já ganha com isso.

Enfim. Parece que finalmente a vida está entrando nos eixos. Mais ou menos. Tenho agora dois artigos do doutorado pra fazer. Não escrevi uma linha. As coisas só estão no cérebro e espero que saiam de lá. Senão vai rolar DR com tico e teco. Eles que me aguardem.

Voltar ao normal não é propriamente a minha praia. Não me vejo normal. Sou meio extravagante de cara e sentimentos. Uso uns óculos de Minion, tenho o cabelo platinado. Num corpo 48. Totalmente fora do aceitável para a sociedade. Dane-se. Sou quem posso ser dentro de mim. E isso se exterioriza.

A Universidade em greve me desanima. Preciso da rotina pra não esmorecer, porque lutar contra a depressão é uó, ainda mais cansada do jeito que estou. Só queria dormir e acordar já no paraíso. Se estivesse em aula esses artigos já tinham saído do forno. Paciência. Agora é sentar e fazer os dois. Os próximos dez dias serão intensos, quando eu só queria descanso.

Agora é voltar à rotina depois de tantas emoções e choros descontrolados. Voltar ao normal...será?

sábado, 8 de agosto de 2015

Dia dos Pais

Esse é o fim de semana dos pais. Quem tem o seu, por favor aproveite.

O meu não se deixou ser aproveitado pelos filhos. Não quis. Isso foi o que pensei por anos. Mas ele não pode.

Alcoólatra desde os 13 anos. Dá pra imaginar o estrago que isso faz na vida de um ser humano e sua família. Mas a verdade é que como filho a gente só se sente rejeitado, na infância não tem como elaborar isso nem ter nenhuma compreensão da profundidade do problema. E por não deixar a gente se aproximar ele sempre foi sozinho. Herdei essa forte sensação de solidão.

Filhos de pais alcoólatras têm poucas lembranças da infância. Pelo menos das boas. Não têm as boas recordações de aniversário, Natal, Páscoa...Essas datas são sempre um martírio pois a pessoa se embriaga e estraga a festa. Ou nem acontece a festa se a pobreza material não permite nem a comida do dia a dia, que dirá festas.

Filhos de pais alcoólatras acham todas as garrafas de bebidas lindas. Talvez pra tentar entender a sedução que aquilo exerceu sempre sobre aquele a quem se amou. Sabem que podem ter herdado a propensão. Uns repetem, outros correm na direção oposta.

Filhos de pais alcoólatras têm mães tristes. Ansiosas. Mães que se esforçam pra fazer os dois papéis e nem sempre são bem sucedidas. E por isso se frustram. E ficam mais tristes.

Filhos de pais alcoólatras tendem a achar que não são bons em nada. Pois quem não pode se doar raramente tem uma palavra de incentivo e encorajamento ao pequeno ser que vaga pela casa.

Filhos de pais alcoólatras são desconfiados e muitas vezes afastam as pessoas. Por puro medo do abandono. Para eles é melhor escorraçar do que ser escorraçados. Parece que dói menos. Mas apenas parece.

Filhos de pais alcoólatras não acreditam que sejam objeto se amor. Nunca foram. Não sabem lidar com esse afeto que vem do outro. Precisam ser ensinados a se sentirem amados e podem arranhar e se debater muito no meio do processo de aprendizagem. É preciso ter paciência com eles. São extremamente medrosos de receber e depois voltar a ficar sós.

Dia dos pais de filhos assim é sempre triste. Pois é difícil de compreender que haja um dia a comemorar esse pai. Encerrado em si mesmo, incapaz de ver além de seu fracasso.

Essa é a cena 1 da vida de muita gente. Cena que precisa ser relembrada para então ser elaborada de uma forma que não se queira mais morrer. Precisa ser trabalhada para que se dê o perdão e se perdoe na cena 2 para enfim seguir com a vida numa cena 3 mais fortalecida e menos solitária, ou pelo menos para identificar de onde vem essa sensação de ser só e lidar com ela com menos dor.

É preciso que filhos de pais alcoólatras se deem uma chance. Para que não tenham mais o álcool como veículo de expressão de sentimento. E que deem lugar ao amor. Se não puderam aproveitar seu próprio pai, aproveitem o pai de seus filhos e dos filhos de seus filhos.

"Amar é dar o que não se tem". Lacan

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O que faz um psicanalista?

Digo que ele começa fazendo mais. Pega na mão do paciente (metaforicamente) e vai com ele a seu destino mostrando as paisagens do percurso. O destino, antes incerto, escuro e assustador, tende a ir se modificando à medida que o analisando se compromete e se esforça em ver os detalhes das paisagens pelo caminho.

A viagem começa numa estação conhecida, mas que não era percebida em suas especificidades anteriormente. O analisando vê que uma parede enorme, por exemplo, na verdade tinha uma porta que ele não via, mas estava bem na sua frente todo aquele tempo. Mas quem vê são seus olhos, não os do analista. O que este faz é apenas sugerir que ele olhe novamente para aquele muro e diga o que vê. Às vezes são necessárias várias novas miradas para que as ranhuras, o desgaste do concreto e a porta inédita no imaginário sejam vistos.

Conforme o analisando vai enxergando as particularidades do percurso, ele vai soltando, sem perceber, a mão do analista. Já se move no ambiente sem precisar de tanta ajuda. Caminha um pouco e pergunta ao analista: "você ainda está aí?". E ouve: "Estou. Pode ir e voltar sozinho. Estarei esperando você explorar o interior do vagão para você voltar e me dizer o que viu".

Em algumas idas o analisando volta assustado. Ele não tinha percebido um espelho quebrado que deformou toda a sua imagem. Como estava um pouco escuro achou que era real. Instigado pelo analista a ver o detalhe, percebe que era apenas um espelho quebrado que distorcia sua visão de si mesmo. Mas aquela imagem permaneceu um pouco mais, precisando de algum manejo do analista.

O analisando percebe um interruptor que podia acender a luz e não entende porque sempre ficou ali no escuro. Toca no interruptor. A luz se acende. Ele olha em volta e vê brinquedos antigos, empoeirados, e lembra de si mesmo. Ele brincava naquele vagão parado na estação na infância. Não lembrava que havia deixado ali pequenos objetos e recordações. Vai remexendo em objetos e sensações. Sente raiva, compaixão, ódio, saudade. Por um momento quer sair correndo e grita pelo analista. "Estou aqui fora. Pode continuar".

Sozinho ali naquele vagão escuro, o analisando se abraça a um brinquedo e chora como a criança que voltou a ser naquele momento. Choro compulsivo, carregado de coisas pesadas e alívio no final. Remexe em mais algumas coisas. Vem em direção à saída. O interruptor trava e a luz não se apaga. Da porta ele vê o cenário inteiro pela "primeira" vez. Nem entende porque sentiu aquilo tudo. Acha por um momento que está louco. "Mas que mal há na sensação de se perder o controle de si mesmo por um instante?", pensa.

Reencontra o analista do lado de fora. Questiona um pouco magoado porque ele o deixou sozinho. "Eu estava aqui fora o tempo todo. Mas nada daquilo me pertencia. Não podia mexer. Só você".

O analisando se despede ainda muito mexido e chateado.

Anoitece. Ele sonha. Todas as sensações parecem desconexas, atropeladas. No sonho vê seus pais no vagão no Natal em que lhe dão o brinquedo ao qual se agarrou mais cedo. Acorda.

Resolve voltar sozinho à estação. Vê agora com clareza aquela porta no muro. "Devo ser louco por nunca ter visto essa porta". Entra no vagão. Vai ao interior. A luz quebrada permaneceu acesa, e dessa vez ele tropeça em menos objetos pelo caminho. Olha em volta. Fecha os olhos. Ouve claramente o "feliz natal" de seus pais e quase sente o cheiro dos doces à mesa. Outro choro incontrolável. Mas agora ele está só. Conseguiu voltar ao interior do vagão sem o analista. Sente vontade de gritar por ele, mas sabe que não tem mais ninguém ali. Só suas lembranças e o que restou de sua infância. O analista desta vez nada fez. Nem estava ali. Só o analisando consigo mesmo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Glorificação da barbárie

Esses dias eu li num artigo onde não me lembro mais sobre o filme Tropa de Elite.  Nele falava  da vergonha que o Wagner Moura tem de ter feito esses filmes (foram dois). Porque o tiro saiu pela culatra, com perdão do trocadilho: ele esperava que fosse gerar uma revolta da sociedade diante de tanta violência na tela, mas não. O público aplaudiu de pé a guerra e a brutalidade. Aliás, nem sei se essa informação sobre a vergonha do ator é verdadeira, mas me deixou pensando caso seja.

Não estou aqui defendendo bandido nem dizendo que a polícia é santa, pois as duas afirmativas estão erradas. Estou apenas tentando refletir sobre o resultado totalmente contrário ao que se esperava de um filme como esse. Ao que parece, aconteceu uma glorificação da barbárie que acontece dos dois lados dessa moeda chamada relação entre a polícia de elite e o poder paralelo que governa as favelas. Favelas sim, porque acho comunidade um termo construído para amenizar a realidade que se vive ali, já que o poder público se lixa pra essa população é só quer resolver a coisa na base do tiro (vide as UPPs) . Com gente inocente. É isso não é opinião . É fato diario estampado em jornal. Estão aí Amarildos e Claudias que não me deixam ser inverídica nesses casos.

Estou usando essa vergonha alheia pra dizer que há muito fomos tomados pelo discurso de que favelado é tudo bandido ou está envolvido , nunca morre inocente. Uma das afirmativas mais cruéis que se pode fazer do povo de trabalha cerca de 16 horas por dia pra fazer com que os nossos serviços básicos como coleta de lixo e limpeza de ruas, por exemplo, sejam invisíveis porque bem executados.
Empregadas domésticas que acordam às quatro e voltam pra casa nove da noite. Profissionais de limpeza de hospitais que impedem que tenhamos uma septicemia no caso de uma internação. Camelôs que passam o dia em pé debaixo de um sol escaldante pra ganhar trocados. Mas são gente digna como nós, "as pessoas de bem" expressão que, aliás, me gera uma tremenda irritação. Bem pra quem?

Mas nós assistimos o primeiro Tropa sedentos pelo segundo. E saímos do cinema nos achando justiçados imaginariamente pelos capitães Nascimento dentro da nossa vontade de eliminar a pobreza  feia e fétida que nos rodeia e nos enoja. Enquanto isso, na cela de justiça, inúmeros jovens negros inocentes são trancafiados e mortos. Lembram do rapaz que carregava pinho sol nas manifestações de junho e que foi preso só por isso? Continua lá.  Sem prova alguma de que tenha cometido o delito mais simples. Mas é negro. Pobre. Não tem parente advogado nem pai que conhece desembargador. E nós aplaudimos a barbárie e queremos sangue, de culpados e de inocentes, não é problema nosso.
Isso aqui é apenas uma reflexão minha. Não acho que devemos coroar o crime. Mas muito menos coroar um sistema que mata todos os dias pessoas que nem chegam a ser gente de fato, conhecedora de seu direito à vida.

É isso.

Espero que realmente o Wagner Moura, ator que admiro muito, tenha se envergonhado de engrossar o coro da glorificação da barbárie nossa, que de tão cotidiana virou normal e praticamente invisível.

Beijos a todos.

Feliz Ano Novo.