segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CONTOS DE ALICE

Ela já estava com um frio na espinha mesmo antes de sair do lugar. Não sei o que vim fazer aqui” era a pergunta que gritava silenciosamente. “Deixa pra lá, agora não dá mais tempo.” Parecia ter se conformado com o inveitável.

Todos a bordo. Um sonzinho estridente de pré-histeria que lhe cortava os ouvidos. Ela, por mais que tentasse ficar à vontade, não compartilhava daquela alegria pueril. E besta.

O carrinho começou a andar e o filme de sua vida começava a passar na sua cabeça no mesmo instante do “segurem-se todos que vamos voarrrrr!!!”. Ela não via a menor graça em voar. Não nasceu passarinho. Mas já que foi parar ali...

Impressionante como a sensação física de cada subida lenta se parecia com suas tentativas de vencer obstáculos internos. Em cada uma ela tinha a nítida sensação de que levava um ano pras coisas acontecerem , pra cada sonho se materializar. Mas não dava tempo. Vinha a ladeira enorme e tudo ia abaixo em questão de segundos.

Ela tentava seguir as instruções de “gritar” pra abrir os pulmões e espantar o pânico, todo mundo levantando as mãos e uma histeria sem fim. Ela fazia os movimentos, mas não pareciam surtir o efeito catártico nela. Parecia que estava louca. Ou era aquela multidão em festa?

E os movimentos se repetiam em frações de tempo maiores ou menores, os gritos, as risadas, e até mesmo algum choro de “me tira daqui”, “não ando mais nisso”.

Ela não chorou, mas eram essas as frases que ecoavam na sua cabeça. Aquele momento parecia exatamente sua vida: subidas exaustivas, que pareciam não ter fim, descidas tão rápidas que mal se contabilizava o prejuízo e já tinha que subir de novo, aquela coisa arrastada que ia demorar novamente um século emocional.

Começou a entrar em sofrimento. Tinha que sair dali naquela hora senão não responderia por si.

“Moça, a senhora vai pegar esse ônibus ou vai no próximo?”

“Hã?”

Foi ali que se deu o estalo.

Ela estava no ponto do ônibus em frente ao parque de diversões ainda fechado olhando a montanha-russa. A fila tentando andar e ela atravancando a entrada no transporte. As vozes, nada mais eram do que dos companheiros de mais uma jornada de trabalho na vida de cada um.

Aquilo tudo realmente aconteceu, cada sensação interminável. Mas só dentro de sua cabeça. O ônibus tinha chegado e ela tinha que seguir vivendo.



Crica Viegas, inverno de 2010.

7 comentários:

Bordados e Retalhos disse...

Ah nossas Alices! Se eu tivesse uma filha ela teria esse nome. Mas nas subidas e descidas a tia Alice sempre esteve comigo. Mesmo longe ele sempre esteve tão perto. Se vc conhecesse a tia Alice a chamaria de tia também. Tia Alice é a intimidade em pessoa. Bjs querida

Isadora disse...

Crica, eu, simplesmente, adorei o conto. E ela ali parada, aguardando o momento, viu a sua vida correr, ou escorrer por suas mãos. Assim com altos e baixos, como a vida é!
Um beijinho

Nilce disse...

Oi, Crica

Como vcs estão? Todos em ordem já?

Que conto, menina. Viajei estagnada no vai e vem dos pensamentos, da vida...
Acordei com um empurrão. Deve ser da vida também.
Parabéns pelo texto!

Bjs no coração!

Nilce

Lu Souza Brito disse...

Adorei o conto. Pior que me vi na narrativa quando fui a primeira vez ao Hopi Hari e subi naquela montanha russa de madeira, gigante, quase 08:00 da noite.
Jurei a mim mesma que nunca mais faria uma loucura daquela. Mas a vida segue e os desafios servem para nos fortalecer.

Beijoooooos

Saulo disse...

Muito bom!

Leci Irene disse...

Crica, delicioso conto! Belkeza!

Mila Viegas disse...

Já te falei!!! kkkk... Você esconde essas coisas e até que enfim veio compartilhar com o mundo este conto de tirar o fôlego. Me abana.. to com falta de ar!!!