terça-feira, 11 de março de 2008

INTERESSANTE E CONTROVERSO...

"Há algo importante que precisa ser dito sobre a tristeza: trata-se de um sentimento muito rico", afirma o psicólogo americano Jerome Wakefield

"Prefiro um tolo que me faça rir a uma experiência que me faça triste"
William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo inglês




EMOÇÕES REVELADAS

O americano Jerome Wakefield, professor da Universidade de Nova York, estuda os fundamentos filosóficos da psiquiatria. Com formação em psicologia e doutorado em filosofia, gosta de investigar a natureza das doenças. Nos últimos tempos, Wakefield debruçou-se sobre a depressão – uma doença hoje considerada epidêmica – e sobre a linha tênue que a separa da tristeza comum, provocada pelas desventuras da vida. “Desde que a psiquiatria passou a diagnosticar a depressão de acordo com os sintomas, e não pelo contexto vivido pelo indivíduo, existe uma enorme confusão entre as duas coisas”, afirma. “O resultado é que as pessoas se tornaram ultra-sensíveis em relação às emoções negativas e preferem tomar remédios a investigá-las.” Segundo Wakefield, a tristeza profunda existe em todas as culturas e os motivos que a provocam podem ser enquadrados nas mesmas categorias em todos os lugares. “Se você mostrar uma foto de alguém tristonho a moradores de uma tribo isolada e perguntar por que a pessoa está daquele jeito, eles apontarão os mesmos motivos que eu ou você”, diz. “Dirão que o retrato é de alguém que perdeu um ente querido, ou terminou um relacionamento, ou está enfrentando dificuldades materiais, ou está doente e por aí vai.” Por isso, diz o pesquisador, chama a atenção o fato de a tristeza ter se transformado num estigma em nossa sociedade. No livro The Loss of Sadness (numa tradução livre: “A perda da tristeza”), Wakefield e o sociólogo Allan Horwitz explicam como chegamos ao ponto de classificar como doença um sentimento que é parte da vida. De Nova York, Hakefield falou a Época NEGÓCIOS.

Por que a tristeza virou motivo de debates recentemente? Diversos livros e artigos sobre felicidade surgiram nos últimos anos. Além disso, inúmeras pesquisas e obras sobre depressão foram publicadas. Agora essas duas coisas estão entrando em colisão. Existem dúvidas em relação ao objetivo de alguns desses trabalhos, que seria tornar possível que as pessoas sejam mais e mais felizes. É claro que todos querem ser mais felizes e não há nada errado nisso, mas há uma percepção de que alguns autores estão tentando ignorar a tristeza, ou defender que ela seja algo ruim, quando outros acreditam que a tristeza é uma emoção normal que cumpre um papel importante em nossas vidas. Esse debate envolve questões antigas, que remontam a 2,5 mil anos, relacionadas à natureza e ao sentido da vida. São questões profundas. E essa discussão, além de uma dimensão psicológica, tem uma dimensão política, na medida em que a busca pela felicidade individual pode tirar a atenção das pessoas de questões sociais mais amplas e da necessidade de agir para aprimorá-las.

"Num mundo que valoriza a eficiência, há pouco espaço para o sofrimento e para a dor"
A tristeza tornou-se um sentimento intolerável na nossa sociedade? Acredito que ainda não chegamos a esse ponto, mas de fato existe uma impaciência crescente em relação à tristeza. É como se houvesse menos tolerância em relação à amplitude natural das emoções humanas. Nummundo que valoriza a eficiência e o trabalho frenético, há pouco espaço para o sofrimento e para a dor. A tristeza profunda provoca, biologicamente, uma necessidade de recolhimento. Ela pode fazer com que você não queira trabalhar por uns dias, ou não queira ver seus amigos por algumas semanas, e isso é considerado indesejável. Acredita-se que as emoções não podem atrapalhar os papéis profissionais ou familiares de uma pessoa. Quando isso acontece, existe uma tendência de rotular esse comportamento como doença – ainda que o sofrimento tenha sido provocado por um fator específico, como a perda de alguém querido, de um relacionamento importante, de um emprego ou de um bem material, por exemplo. A psiquiatria passou a rotular quase todo tipo de tristeza como depressão, e as pessoas tornaram-se ultrasensíveis em relação aos sentimentos negativos. Muitas recorrem aos antidepressivos ao primeiro sinal de angústia.Como não confundir tristeza com depressão? A depressão é um quadro clínico no qual o sofrimento não tem nenhuma relação com o contexto que a pessoa está vivendo, ou no qual sua resposta emocional é completamente desmedida em relação ao evento que provocou aquele sentimento. A tristeza normal – que pode ser intensa – é uma resposta natural a um acontecimento real. Essa distinção fundamental não é fácil. Há uma linha tênue entre as duas coisas e sempre haverá casos controversos. O problema é que ela simplesmente não está sendo feita.

Há casos em que a tristeza deva ser tratada com remédios? Eu e meu colega Allan Horwitz não somos radicalmente contra o uso de medicação. Acreditamos que a decisão de usar ou não medicamentos deva ser tomada pelo médico com seu paciente. É possível que o uso de remédios seja apropriado em alguns casos de tristeza, quando o sofrimento é extraordinariamente intenso e a pessoa sente que, se conseguir aliviá-lo um pouco, poderá se tornar mais apta para lidar com aquela situação e reconstruir um determinado aspecto de sua vida. Mas é importante notar, em primeiro lugar, que essas drogas não são tão eficazes para a maioria das pessoas quanto costumamos acreditar. Não é como tomar uma aspirina para a dor de cabeça. Na maioria dos casos, é necessário tentar vários remédios até encontrar um que funcione. Em segundo lugar, os efeitos colaterais são piores do que os anunciados e vão além de alterações na libido. O mais importante, porém, é que a ciência ainda não sabe de que maneira os medicamentos interagem com a tristeza normal. É algo que ainda precisa ser investigado. O problema é que, como a psiquiatria não distingue entre a depressão e a tristeza normal, as pesquisas que vêm sendo feitas ainda não respondem essa questão.

E vcs...o que acham disso?

2 comentários:

Mila Viegas disse...

Bem polêmico mesmo! Mas foi aquilo que eu te falei, se a gente não passa por certas coisas não compreende outras.

Lucia Cintra Stevenson disse...

Aqui nesse pais tudo e' considerado doenca. Devemos ter uma porcentagem enorme de hipocondriacos desnecessarios.

Eu sempre discordei de tratarem depressao com remedios ou como se fosse doenca. Isso pra mim, tem origem na cabeca da pessoa e no modo em como cada um encara as situacoes da vida. A frase desse cara: "O resultado é que as pessoas se tornaram ultra-sensíveis em relação às emoções negativas e preferem tomar remédios a investigá-las.” esta certissima.

Claro que tem os casos extremos como a perda de alguem que amamos e etc, mas as pessoas parecem recorrer a remedios por qq coisinha, achando que vao eliminar seus problemas, quando a forca e a coragem de passar por cima e continuar em frente tem que vir de dentro delas mesmo.

Acho que e' por isso que certas pessoas choramingonas por qq motivo me irritam um pc, pois sair dessa so depende delas mesmos. Tipo, sai dessa e vai atras do que quer. Eu ja passei por essa fase e tb deve ser outro motivo pelo qual me irrita, pois perdi tanto tempo nessa tristeza toda que se eu pudesse voltar atras e me dar uns tapas pra acordar e ir em frente, nao pensaria duas vezes.