terça-feira, 6 de junho de 2017

O tempo no processo depressivo

Estamos vivendo em tempos estranhos. Estamos imersos num sistema de aceleração de todas as coisas e processos que nos tem levado a todos a um estado de exaustão que não nos deixa.
Vivemos uma esquizofrenia psíquica porque, além de acelerados e ansiosos, estamos também deprimidos.
E é interessante como essa coisa chamada tempo se processa numa pessoa que está num estado onde a libido (energia de vida) parece abandonar o sujeito à própria sorte.

O descompasso se inicia ao primeiro abrir dos olhos pela manhã. Na verdade, esse já está instalado porque a noite anterior não foi de descanso e o estado ansioso atrapalhou por demais o sono, durante o qual não se teve a experiência da profundidade. O tempo parece um grande navio embora a gente quisesse que ele fosse um jato. E aí o nossa mente e espírito começam a batalha de acelerar o impossível. Pelo menos para quem está de fora.

Levantar da cama para ir ao banheiro já é uma tarefa olímpica. Engraçado que os minutos andam da mesma maneira, mas o corpo, refém da mente rebelde, se agarra nos ponteiros do relógio para atrapalhar o percurso linear das horas.
Aqueles 15 minutos até poder sair do quarto e ir preparar um gole de café na cozinha estão já multiplicados por quatro no corpo, porque foi essa a proporção de energia gasta para fazer essa tarefa.

No caminho para o trabalho, as coisas parecem não fazer muito sentido porque não se consegue compreender como as pessoas estão num estágio de energia vital que o sujeito nem consegue vislumbrar. E assim passa a primeira metade do dia. Quando chega a hora do almoço parece que já se viveu uma vida. O dia continua e assim ele termina.

A dimensão do tempo é algo que muda radicalmente num processo depressivo. Parece que a baixíssima libido transforma o deprimido num ser fora do tempo. Aquém dele. Pois simplesmente tudo parece que leva pelo menos o dobro para se realizar, mesmo que seja um pensamento. Quando se tem que ir do nível da ideia para a esfera da ação, aí a energia gasta parece quadruplicar, e o fim do dia parece o fim de uma guerra.
Um cansaço sem fim de ter que carregar nas costas o peso das horas que correm e se arrastam ao mesmo tempo, onde o que se produziu foi pensamento demais e ação de menos.

É preciso levar em consideração essa diferente dimensão do tempo para uma pessoa deprimida. Não é preguiça. Não é má vontade. É o ser abandonado pela própria energia de viver. É o se trancafiar no eu sem medir as consequências porque não se consegue sequer vê-las.

Levar em conta esse tempo não é ajudar a pessoa deprimida com quem se convive a se afundar. É apenas compreendê-la. Pode-se querer ajudá-la a acelerar uma rpm que seja, mas não será produtivo emocionalmente inseri-la numa corrida na qual ela não está em condições de estar presente naquele momento.

O tempo, em nossa sociedade, foi mercantilizado. Minutos viraram dinheiro. Mas os processos emocionais não obedecem a essa lógica, por isso a importância de dar tempo para quem não consegue viver o tempo de caça-níqueis que nos empurra dia a dia.

Mais mão estendida e menos julgamento pode ser muito mais proveitoso para quem está passando por esse processo sombrio da alma e para quem está ao lado.

Crica Viegas
Junho de 2016

sábado, 25 de março de 2017

Do amor e da vida

Nossas bodas de um porvir não mais tão distante marcarão uma virada em nossas vidas
Embora ainda cinco, nos tornaremos três. E sem deixar de amar três, teremos ainda por um tempo somente um. Choraremos. Semearemos.

Um virará dois, e estes serão um. E nos alegraremos. Colheremos frutos do amor.
Bodas de uma vida. Atribulada e imensamente feliz. Muitas lágrimas adubaram o solo do nosso percurso, mas não nos impediram de prosseguir. E nos fizeram florescer.

Nossa árvore tem três frutos diversos entre si, igualmente carregados de amor e medo por não estar fazendo o que deve ser feito para que sejam livres.

A separação desses frutos do nosso tronco será feita com dor e amor. Cada um seguirá seu destino. Os três. Mas a despedida de dois mais maduros já tem tempo marcado, ainda sem dia e hora para que suportemos. Talvez por isso o Eterno nos tenha dado o fruto ainda pequenino.

Serão tempos maravilhosos também. Haverá amor. A paz, tenho certeza de que virá do Alto, pois serão tempos igualmente difíceis e continuaremos todos peregrinos.

E assim seguiremos. Até branquear de vez nossas cabeças e estivermos no quintal de casa felizes, abraçando os lindos frutos dos nossos frutos. E nossa árvore da vida estará completa.

Crica Viegas

quinta-feira, 23 de março de 2017

FAROESTE CABOCLO 2017

Não tinha medo o tal Michel do anti esquerdismo
Era o que todos diziam quando ele se vendeu
Deixou pra trás todo o marasmo da decência
Só pra sentir no seu sangue o ódio que o PT lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro seu caráter faleceu
Virou o terror da cercania onde morava
E na escola até o colega com ele aprendeu
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as pessoas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para defraudar pessoas que ele via na televisão
Roubou dinheiro para poder viajar
De escolha própria, escolheu o partidão

Dentre todas as menininhas da cidade
Foi Marcela a escolhida pelo cabra comedor
Ela teve banho de loja transformatório
Onde aumentou seu dote diante de tanto valor
Não entendia como a vida funcionava
Teve aulas de beleza pra ter classe e humor
Michel viu que Marcela era uma boa aposta
E comprou a mina com o discurso de "vou ser seu Salvador"

Voltando à vida foi tomar um cafezinho
E encontrou um doleiro com quem foi falar
E o doleiro tinha uma passagem Ia perder a viagem mas Michel foi lhe salvar
Dizia ele ''Estou indo pra Brasília
Nesse país lugar melhor não há
Tô precisando de político na quadrilha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar''

E Michel aceitou sua proposta
E num vôo ele chegou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Era tanta da propina que parecia até natal
Meu Deus, mas que cidade linda!
No Ano Novo eu começo a trabalhar
Desviar verbas com os parceiros dava mais de cem mil por mês em Planaltina

Na sexta feira fazia zona na cidade Gastar todo o dinheiro do povo trabalhador
E conhecia muita gente meliante
Até um neto retardado de Tancredo o tal senhor
O cara tinha cocaína da Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Aécio e ele dizia
Que um negócio ele ia começar

Onde o pobre até a morte trabalhava
E o dinheiro mal dava para se alimentar
E ouvia às nove horas o noticiário
Que sempre dizia que seu ministro ia ajudar
Michel não queria mais conversa
E falou que pobre tinha era que se ferrar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E sem ser crucificado até na delação foi parar

Logo os político tudo da cidade Souberam da novidade
''Tem bagulho bom aí!''
E o Michel Temer ficou rico com o PMDB e acabou com todos os concorrentes dali
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
Ia pra festa Yunes pra arregimentar
E de repente
Sob uma influência do doleiro da cidade
Começou a tramar
Já na primeira trama ele ganhou e
Virou "seu" presidente pela primeira vez
Violência e estupro do trabalhador
''Vocês vão ver, eu vou pegar vocês!''

Agora Michel Temer era o bandido favorito e destemido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia Capitão ou traficante, afinal era o maioral
Nem mesmo quando conheceu sua menina
De todos os seus pecados ele se arrependeu
Marcela Temer era uma menina linda
Como prova do amor dele pra ela um Michelzinho ela lhe deu
Ela era bela recatada e do lar
E assim nunca deixou de ser
Marcela Temer pra sempre vou te amar E um futuro com você eu quero ter

O tempo passa
E um dia vem um editor da Veja de alta classe e alta pose
E muito dinheiro na mão
Ele faz uma proposta indecorosa
E diz que espera uma resposta para a manifestação
''Não boto bomba em banca de jornal Nem em colégio de criança
Isso deixa pra PM então
Sou melhor que general de dez estrelas Porque bato mermo na mesa tenho todo mundo na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa E nunca brinque com pmdbista master em corrupção''
Mas antes de sair com ódio no olhar
O editor disse: Você perdeu a sua vida, Michelzão!

Você perdeu a sua vida, Michelzão! Você perdeu a sua vida, meu irmão! Essas palavras vão pra próxima edição
Cê vai sofrer as consequências como um cão

Não é que editor estava certo mas
Seu futuro era incerto
E quando ele foi trabalhar
Se espantou ao ver a nova cigarreira Descobriu que tinha outro editando em seu lugar
Falou com Moro que queria um parceiro
Que também tinha dinheiro e queria se armar
Queria ver o seu processo em Curitiba
E Michel Temer vendido em Planaltina

Mas acontece que um tal de Odebrecht
Traficante de influências
apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos do indigente
E decidiu que com Michel ele ia acabar
Aécio Neves fez uma proposta para os dois
E Michel Temer sabia negociar
Decidiu usar a arma só depois
Que os partidos  começassem a brigar

Odebrecht empreiteiro sem vergonha Organizou a Lava jato e fez todo mundo se cagar
Delatava políticos não tão inocentes Pois agora a chapa é quente, mas não sabia parar
E Michel Temer há muito não ia pra zona
E a vontade começou a apertar
Eu vou me embora, eu vou ver a Marcelinha mas no caminho o biscoito eu vou molhar

Já está em tempo da Lava Jato cessar Chegando em casa então Michel chorou
Porque pro palácio ele foi
pela segunda vez
Com Marcela Temer viu fantasma e se assustou
E deu um baita de um cagaço nos três

Michel Temer era covarde por dentro
E então o novo editor pra uma conversa ele chamou
Amanhã às duas horas na internetilândia você publica que
"Temer pro Jaburu voltou"
E você escolhe muito bem as suas palavras
Senão acabo eu mesmo com você,
seu porco editor
Até mato também Marcela Temer Aquela menina boçal pra quem jurei o meu amor

E os políticos já sabiam o que fazer Quando viram o repórter aparecer
E dar notícia do retorno na TV
Dizendo a hora, o local e a razão

Então 15 de março marcando as horas
Todo o povo sem demora
Foi gritar "Fora" e resisitr
A um sistema que atirava pelas costas
Do trabalhador e do salário, acertou o "Fora Temer
E começou a sacudir

Sentindo o sangue na garganta Michel olhou pras bandeirinhas
E pro povo a aplaudir E olhou pros seus parceiros
E pras câmeras e a gente da Mídia Ninja que filmava tudo ali

E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança Se a República virou circo é porque estou aqui

Mas o poder cegou seus olhos
E então Maria Lúcia STF ele reconheceu Trazia com ela umas provas de caixa dois
E mais umas contraprovas que o Mello lhe deu

"Michelzão, não sou homem
Coisa que você também não é
Não atiro pelas costas não"
"Olha prá cá golpista sem vergonha
Dá uma olhada no meu aval
E vem sentir o teu perdão"
E Michel com dinheiro do caixa dois
Deu cinco tiros no povo trabalhador Maria Lúcia se vendeu depois
E matou junto com Michel, seu protetor

O povo que nas ruas declararava que
Sabia do babado e não ia trabalhar até morrer
E a alta burguesia da cidade acreditou na história só porque eles viram da TV

E Michelzão conseguiu o que queria Quando veio pra Brasília o golpe promover
Ele queria a cadeira de presidente
Pra ferrar com toda essa gente que só faz trabalhar pra comer

sábado, 5 de novembro de 2016

Nossas idiossincrasias brasilianas

E depois de uma crise de pânico desse mundo (no real do corpo), ainda deitada, comecei a normalizar as sinapses.
.
.
.
.
Interessante que ouvimos sem parar que luta de classe não existe e é coisa de marxista-maconheiro-de humanas que não faz nada e tem tempo de pensar essas merdas.

Tá. Vou nem falar do mundo. Vou ficar só com uns dados da terra brasilis.

O que temos visto explodir desde junho de 2013 é o quê? O que você acha que é ese rebuliço que toma conta das ruas e que parece briga de torcida?
Jovens na rua tomando porrada da polícia, jornalistas ficando cegos por tiros de balas de borracha, morrendo. O rapaz que portava o pinho sol preso até hoje por ter PORTADO PINHO SOL na mochila.

Jovens ocupando mais de 1200 escolas sob o silenciamento ou a criminalização massacrantes da mídia que detém o dinheiro no país. Sendo alvos recentes da tortura autorizada pelo Estado.

O que vc acha que é classe média  paneleira na avenida Paulista (porque uma parcela não o é) tendo cobertura midiática e banda de música global regada a prosseco reclamando suas ideias (porque ideia todo mundo pode ter e defendê-la) e essa mesma mídia "faz a gringa" (expressão que quer dizer que finge que não tá acontecendo nada embaixo do seu nariz) quando o país explode em manifestações de rua que só recebem tiro, porrada e bomba de gás?

O que vc acha que é Jucá dizendo que já falou com os generais e que estão já monitorando o MST?

O que vc acha que é esse discurso de "você não tem sucesso por que vc é preguiçoso e ainda tem o defeito de ser preto e mora longe?... "próximo! se aproxime do balcão, por favor"...

O que você acha que é quando menos favorecidos compram esse "texto pronto" e com ele engrossam as fileiras que justificam a mesma desigualdade qie os massacra?

Titia Crica explica:

Isso se chama LUTA DE CLASSES.

Que tem como carro chefe DOIS GRUPOS antagônicos socialmente: um tem capital, dinheiro, la plata, poder na mídia, na escola, no partido. Tem ídolos como Trump (por quem são chamados de porcos e assim mesmo fazer passeata para ele na Paulista) e FHC ( nome nome de inseticida pra mim,  não consigo evitar essa associação).  

O outro grupo almeja e almejará a vida toda sem alcançar quase nada além do sustento, quem sabe um carrinho popular, para seus filhos uma escola sem árvores e que o máximo do lazer é uma quadra de cimento.

Esse são os grupos principais. Sim,  porque a chamada luta de classes é muito mais complexa.

Há grupos economicamente semelhantes se degladiando DISCURSIVAMENTE, porque não enxergam que estão todos na mesma escala da pirâmide. Uns põem o pé no degrau de cima, com cordas segurando pra não despencar e voltar lá pra base, as mãos sangram, mas aí passam a se achar superiores só porque as mãos sangram e isso é sinal de esforço. E com isso passa a achar indigno o outro que só sangra por dentro mas ele não vê, esquecendo que o que tá lá em cima assiste feliz de camarote a subdivisão da luta de classes, os iguais brigando entre si. A luta de classes acontece econômica e discursivamente intraclasses também.

POIS É.

Como a gente pode ver, a luta de classes está aí com força total. É uma pena que achemos que tenhamos que brigar entre nós e com isso alegramos as classes abastadas. Diminuímos nossa força de luta e discursiva a partir de uma mentira.

Qual é essa mentira? De que alguns de nós pode fazer parte de uma classe que na verdade quer o sangue nas mãos (esforço), mas tira as cordas (garantias contitucionais, por exemplo), e quando não servimos mais como colaboradores do sistema, nos empurram de volta em queda livra lá pra baixo sem as cordas pra nos lembrar de onde viemos.

Ou seja: esforço pessoal é uma condicionante muito fraca no terceiro pior país do mundo em mobilidade social. Pesquisa lá das gringas.

Esforço pessoal se torna ínfimo quando não há garantias.

E você aí chamando aquele seu vizinho que sai de casa às 5 da madrugada e volta às 9 da noite de vagabundo. Pensa. Não mata seus neurônios, fique tranquilo.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sobre a vida e suas dificuldades

Sou a única em minha família que entrou num doutorado. Se vou sair viva dele, é outra história rs...
Como uma pessoa introspectiva de nascença (minha mãe sofreu um retraimento no útero na hora do parto  ao invés de expulsar o bebê e isso afetou a minha maneira de ser desde então), sempre fui quieta (passei raspando centímetros do autismo) e boa aluna. Detestava a escola. Porque eu não socializava. Mas amava estudar.
Por ser muito pobre, a minha alegria era me trancar na biblioteca pública e ler tudo o que eu podia.

Nunca consegui aprender matemática, física e química. Mas português, redação, literatura e história eu amava. E era isso que eu ficava degustando nas horas a fio naquela pequena biblioteca num canto da praça da cidade. Quando soube que foi demolida e deu lugar a um anfiteatro, me doeu como se tivesse perdido alguém querido  ...

Estudei muito, incentivada por minha mãe, que não queria que eu tivesse que ser dona de casa por falta de opção. Me tirava da cozinha e me mandava estudar. Criou um monstro rs.
Por ser extremamente calada, pensativa e leitora contumaz, as entrelinhas dos textos sempre foram tão nítidas quantos as palavras escritas. Minha mente aprendeu a ser crítica e analítica. Eu pensava. Muito. Era o que eu tinha, já que não tinha amigos, nem dinheiro para ter as coisas que as meninas gostam, como bonecas, e nem os livros que eu tanto sonhava.

Consegui chegar à universidade com muita dificuldade, tive que abrir mão do que queria naquele momento e escolher algo de que gostasse mas tivesse menor concorrência porque minha base de escola pública não dava pra passar pra medicina. Um amigo conseguiu pra mim uma bolsa de estudo num cursinho intensivo, e passei em primeiro lugar para Serviço Social. A alegria da minha mãe. E motivo de riso para os colegas abastados de classe que não entendiam porque eu precisava estudar pra uma carreira daquelas. Um em especial me ajudou muito aliviando a minha fome e me pagando lanches no intervalo. Tornou-se um grande amigo, do qual sinto muita saudade.

Mas a fome que passei durante a faculdade era velha conhecida. A gente nunca se acostuma com a fome. Ela torna a necessidade urgente. Mas eu tinha que continuar. E queria. Eram semanas de biscoito com mate. Ou de italiano com suco de caju. Hoje não consigo beber suco de caju. Coitado, ele não tem culpa rs.

Essa experiência foi maravilhosa e extenuante ao mesmo tempo e, ao fim da faculdade, já tinha dois meninos pra criar. Como escolhi ser mãe antes de acabar os estudos, meu sonho de estudar parava ali. Por um espaço de tempo que eu não sabia nem se acabaria.

Foram anos difíceis tendo de me adaptar a tudo para aquilo que minha mãe não me preparou: ser mãe e dona de casa. Vivi os momentos mais lindos com meus dois filhos e marido e também os mais tristes nos quase vinte anos que permaneci mãe de tempo integral. Nunca consegui ler estórias antes dormir pra eles, acho que por trauma de ter que deixar o sonho na gaveta.

De 1994 a 2011 foi um tempo interminável pra mim. Foi quando, com filhos já crescidos mas com uma bebê de dois anos, resolvi que era a hora de voltar a viver plenamente. O dinheiro ainda não era lá aquelas coisas, mas muito melhor do que tudo que eu ja havia tido. Queria fazer algo em que a leitura se fizesse presente. E agora,  finalmente, eu poderia comprar livros.

Me inscrevi no mestrado acadêmico e passei na primeira colocação, o que me possibilitou ser bolsista e me deu um grande alívio, porque ia sacrificar menos  a minha família pra conseguir estudar. E também porque meses antes havia começado uma especialização que me serviu de preparatório. Era um mestrado em Administração, uma ciência social aplicada, mas eu ainda estava na área das Ciências Humanas e pude escolher uma linha de pesquisa mais reflexiva, de pensar a sociedade, as pessoas e as organizações, o meu grande projeto de pesquisa da vida.

Ao começar em 2012 a escrever a dissertação, na qual falava basicamente sobre ideologia no meio acadêmico, fui fisgada, capturada pela Psicanálise na prateleira de uma livraria. E foi um caminho sem volta,  entrei de cabeça em curso de formação e muita leitura e estudo até agora. E em 2014, depois de um mergulho intenso no mundo abissal da Psicanálise, com 7 anos de análise pessoal nas costas e ajuda de queridos mais experientes, me fiz psicanalista. A essa altura eu já era assistente social e mestre em Administração e cria da universidade pública, com muito orgulho.

Tomada então pela beleza e profundidade da psicanálise, pela paixão pelo discurso e pela luta de classes, fiz o processo seletivo e fui aceita no doutorado em Linguística. E aqui estou, neste ponto da minha história.

Tudo isso pra dizer que é praticamente impossível para quem nasceu tão pobre entender o que é meritocracia. Porque simplesmente ela não existe. É um discurso-falácia da ideologia liberal que a sociedade compra e acha natural.  Não tive nenhuma condição de acesso à carreira que sonhava na juventude. Tive que estudar muito mais do que a média e superar deficiências enormes de conteúdo, muitos dos quais eu nunca consegui. E o que eu consegui furar no sistema foi exceção. Simples assim. Fui uma exceção num sistema que repete nos seus princípios o momento da reprodução humana: milhões de espermatozoides são criados para não alcançar seu objetivo, apenas fazer parte da massa. E não fui o espermatozoide vencedor...fui no máximo um daqueles que fazem uma
fecundação in vitro e fecundam sêxtuplos, por exemplo.

Tudo isso pra dizer que o sistema em que vivemos é quase blindado. É feito para não ser acessado mesmo pela maioria, mas desfrutado por poucos.
Isso não tira a minha alegria de ter vivido tudo isso. Mas quero que meus filhos saibam e entendam que todas as conquistas para que gente como eu, uma maria ninguém, pudesse ter acesso ao estudo na universidade pública, estão vergonhosamente sendo desmontadas na velocidade da luz. Talvez Inessa não tenha mais acesso a isso daqui a pouco mais de dez anos se governos que destroem direitos conquistados com sangue de muitos façam esse desmanche. Por isso peço a meus meninos que terminem suas faculdades na UFRJ, pois pode ser que elas venham a ser somente uma lembrança de um tempo de menos horror. Porque estamos no ciclo de retorno à barbárie. É assim que caminha a humanidade,  entre conquistas humanas e a completa barbárie.
Sem mais.

Fora, Temer.

sábado, 14 de maio de 2016

A TRÁGICA " ERA PT" ILUSTRADA POR NÚMEROS

Peguei esse texto do Vinicius Costa no Facebook.  Bom, vamos aos números:

1) FOME : O Brasil reduziu em 82,1% o número pessoas subalimentadas no período de 2002 a 2014. A queda é a maior registrada entre as seis nações mais populosas do mundo, e também é superior a média da América Latina, que foi de 43,1%. O Brasil saiu do Mapa da Fome.

2) EDUCAÇÃO : O número de matrículas no ensino superior dobrou com Lula e Dilma; passou de 3,5 milhões em 2002 para mais de 7 milhões em 2015. O número de Mestres e Doutores, assim como de cursos de pós graduação , também mais do que dobraram.

3) PIB: no fim do governo FHC o Brasil figurava como a 13° maior economia do Mundo . Em 2011, sob o comando da (ex) Presidente Dilma chegamos a ser a 6° maior economia do Mundo , à frente de países como a Inglaterra. Hoje, após o período de crise e da forte desvalorização cambial, somos a 9° economia do Mundo. O PT pegou o país em 13° e entregou em 9°

4) DESIGUALDADE : segundo o índice de Gini, a desigualdade despencou na era PT. O coeficiente Gini, segundo o Banco Mundial, passou de 58,6, em 2002, para atuais 52,9 - Nesse índice , quanto mais perto de 0, "mais igual" é o país. A ONU e a maioria dos economistas justificam que o importante avanço em termos de diminuição da desigualdade social se deu por conta das políticas de valorização do salário mínimo real e da expansão de programas como o bolsa família.

5) IDH - Índice de Desenvolvimento Humano - dados da ONU : passou de um ridículo índice de 0,649 em 2002 (algo próximo do IDH do Iraque e mais baixo que o IDH da Jamaica ) para os razoáveis 0,755 atuais

Acréscimo meu: num país de dimensões continentais como o nosso, não temos noção de quantas pessoas nos mais distantes rincões e mesmo nas metrópoles deixaram de ser miseráveis em sentido abrangente.

domingo, 1 de maio de 2016

Trabalhadores do mundo, uni-vos!

A frase do manifesto comunista escrito oor Karl Marx é o que me vem à mente no dia de hoje: é dia do trabalhador, e não do trabalho como se confunde por aí.
Dia da classe que vende a sua força de trabalho para um sistema que também quer sua alma.  Trabalhadores que se privam mais ainda do que poderiam ter para criar seus filhos.
E é em nome desses trabalhadores pais e futuros trabalhadores filhos que a esquerda brasileira não tem o direito de fazer discurso da derrota. Já temos a mídia manipulada e paga para isso.
Por conta dos acontecimentos hediondos da esfera política brasileira, estamos amedrontados. Mas não há derrota. Há luta. "Nada a fazer, senão esquecer o medo".
Os milhões de trabalhadores que hoje são lembrados nesse primeiro de maio não precisam de medo ou derrota. Esse discurso de fim da linha para a esquerda no Brasil é plantado por essa "mídia nojo" e não pode dar frutos. Os que precisam do Bolsa Família, Prouni, Pronatec, incentivo de agricultura familar e políticas afirmativas não merecem que a esquerda que se autoproclama intelectualizada recue nesse momento. Não temos o direito de tirar dessas pessoas a crença num Brasil pelo que valha a pena lutar. O discurso do fim da história da esquerda brasileira, repito, é uma mentira. E não é retrocedendo no qie se acreditou até aqui que faremos algo de concreto pelo país.
Mesmo com a imundície que os poderes Legislativo e Judiciário estão produzindo, não conseguiram encontrar crime na governante maior. Estão precisando fabricar fatos junto com a mídia para instalar de vez sua quadrilha no poder. Mas a esquerda tem que e vai ser a pedra no sapato dessa gente.  Porque os trabalhadores não precisam que lhe sejam extorquida a humanidade.
A presidente foi criticada por que não se vitimizou diante do mundo na fala na ONU. Alguém ainda em sua ingenuidade  pensou que a "mulher-sem-marido-nas-costas-que-foi-torturada-e-chegou-à-presidência" ia fazer a coitada? Não né. Nunca fui fã da pessoa, mas também nunca me pareceu ser esse seu perfil. Os trabalhadores precisam de alguém que lute, não de vítimas na esfera politic e administrativa do país.
Então, de uma vez por todas, a esquerda precisa levantar, sacudir a poeira e partir pras próximas batalhas, porque vem chumbo grosso por aí. Teremos que lutar dez vezes mais pela Educação, seja de base ou Universitária, pela Saúde, pelos direitos trabalhistas mais fundamentais com o direito à férias, por exemplo, pelas políticas de Estado que foram conquistas dessas classes que realmente produzem e fazem a roda da economia andar. Não é o sistema financeiro que salva um país de uma crise. Ainda mais com a classe política em dobradinha com o setor privado fazendo a vergonha mundial de jogar o país no buraco.
Esta na hora de lutar. Com todas as forças. Contra todas as probabilidades. Porque pra trabalhador nada vem fácil. Ele não tem tempo de sair batendo panela porque precisa trabalhar pra colocar comida nela.
A saída para um país como o Brasil deve ser sempre pela justiça social, conquista e manutenção de direitos. Porque meritocracia é uma das mentiras mais bem fabricadas pelo sistema. Não há meritocracia com ausência de direitos.
Chega de discurso de fim da esquerda brasileira e bora pra luta. Estamos apenas começando.